Sinopse: "Em 1997, o jornalista e escritor japonês Koushun Takami sofreu uma grande decepção. O manuscrito de seu romance de estreia havia chegado à final do Japan Grand Prix Horror Novel, concurso literário voltado para a ficção de terror, mas acabou preterido. Não era para menos. Embora habituado a tramas assustadoras, o júri se alarmou com a história do jogo macabro entre adolescentes de uma mesma turma escolar que, confinados numa ilha, têm de matar uns aos outros até que reste apenas um sobrevivente. Detalhe: o organizador da sangrenta disputa é o próprio Estado japonês, imaginado pelo autor como uma totalitária República da Grande Ásia Oriental. O livro, intitulado 'Battle Royale', só seria lançado em 1999, espalhando um rastro de polêmica – vendeu mais de 1 milhão de exemplares e foi comentado no Japão inteiro. A repercussão foi tão intensa que apenas um ano depois já eram lançadas as adaptações da história para o cinema e para os mangás – mais tarde, viriam sequências tanto na tela grande como nos quadrinhos." (Fonte: http://www.saraiva.com.br/battle-royale-6950381.html - acessado em 27/01/2016 às 16h38min)
Como conheci: Já fazem alguns anos que parei de comprar e colecionar mangás. "N" motivos me levaram a parar de aumentar minhas coleções, seja a vida universitária (leia-se dureza econômica), estágios e outros demais pormenores que te batem na cara e que fazem parte da adorável vida adulta.
Contudo, quando meus cabelos eram longos e eu comparecia religiosamente na banca de revistas da rodoviária de Araranguá (que infelizmente já fechou =/), uma das obras que comecei a colecionar foi justamente Battle Royale. Foi iniciar a leitura e me apaixonar pela trama! Infelizmente eu nunca consegui terminar a coleção e por consequência fiquei anos sem saber o final.
Alguns anos depois (e alguns centímetros de cabelo a menos) eu pus minhas mãos na obra que deu origem ao mangá, o livro de Shun Takani, o qual teço essa nada pequena resenha.
Resenha: Apear de ter uma visão de mundo bem abrangente, sou um apaixonado por obras que sigam uma linha maniqueísta. Capa e espada, bem x mal são coisas que enchem meus olhos em livros e quadrinhos. Em suma, eu gosto de heróis e do bom e velho clichê.
Não raras vezes me aventuro em outros gêneros, procurando por agradáveis surpresas. BR foi um desses casos. O próprio autor o classifica como sendo um pulp, mas mesmo que não o fizesse, o livro grita isso. Contudo, não se engane achando que se trata de non sense "tarantinesco" com violência gratuita, o buraco é bem mais em baixo.
A trama se passa em uma realidade distópica, em que um governo ditatorial mantém um experimento militar denominado "O Programa", onde praticamente todo ano uma turma do primeiro ano ginasial é escolhida de forma aleatória para participar. Sem entrar muito nos detalhes, o Programa consiste em deixar tal turma em uma região desabitada, dando para cada aluno uma bolsa com suprimentos e o mais importante, uma arma (que pode ser qualquer coisa, inclusive um garfo!). O propósito, como você deve ter imaginado, é que eles se matem até que sobre apenas um sobrevivente. Vou tentar não entrar em muitos detalhes (apesar de querer muito), para não estragar o prazer de devorar as nuances da história, que cada página esconde, porém, preciso fazer algumas considerações importantes.
A primeira coisa que me impressionou e num primeiro momento me fez pensar em desistir da obra, é o ponto de vista em que é narrada. O autor descreve as desventuras (em série) de absolutamente TODOS os 43 estudantes, de forma detalhada, rica e sem pressa. No começo isso pode deixar confuso um leitor mais simplista (para não dizer xucro) como eu, mas persevere! Você acostuma rápido com o ritmo (que lembra um pouco o de Guerra dos Tronos) e quando menos perceber estará viciado no livro. Cada capítulo narrando o ponto de vista de um determinado aluno mostra seu universo particular. Suas personalidades são amplamente exploradas, seus medos e anseios afloram ricamente no desenrolar do livro. As tramas individuais praticamente só se conectam devido ao amor. Apesar de separados e se caçando, muitos deles amam uns aos outros, externando isso em lembranças, devaneios ou ajudando seu amado em meio a matança. Isso mantém a história unida e bem amarrada entre os capítulos.
Mas a história é tão diferentona assim? Não tem heróis? Ah os heróis... Sim eles existem! Para o meu deleite, existem alguns "mocinhos", bem como alguns vilões e muita gente confusa andando na corda bamba da sanidade. Se você é como eu e em todo livro veste a camisa do "time do bem", lamento dizer que você torcerá para um ou outro vilão em determinadas situações, bem como praguejará contra os mocinhos em outras. Essa é a ideia do livro, te deixar com os sentimentos tão confusos quanto aos dos meninos e meninas obrigados a chacinar seus colegas.
Outro ponto marcante no livro é a política. Não apenas sobre o Programa, mas o governo como um todo. Se você chegou até aqui e achou BR parecido com Jogos Vorazes e afins, você está parcialmente certo. O livro de Takami serviu de inspiração para outras obras de mesmo que seguem essa linha. A grande diferença é que BR não traz esperança de derrubar a tirania. Todos os personagens expressam grande ódio pelo governo que os pôs naquela situação, mas se revelam impotentes para derrubá-lo ou criar a revolução e efetivamente lutar por dias melhores. Os jovens são apenas estudantes nadando no sangue de seus colegas, tentando sobreviver a qualquer custo. Curiosamente, apesar do autor não viver em um governo totalitário, a descrição acerca da opressão estatal é muito vívida, sendo anestesiada em algumas passagens pelo "sonho americano" e por letras de rock como filosofia de vida.
Assim como em Guerra dos Tronos, não se apegue a personagens, pois eles vão e vêm. Quando vão, a frustração é grande demais. Novamente, essa é a intenção do autor: Te fazer morder o livro de raiva. Isso faz com que BR seja único e incrivelmente delicioso. É impossível lê-lo sem esboçar uma aquarela de sentimentos conflitantes em um curto espaço de tempo.
Apesar de ser um livro grande (e bota grande nisso), a história é tão fluida e cativante, que as páginas voam entre seus dedos e logo você encerra a obra do mesmo jeito que começou: Como se estivesse levando um belo soco na cara e com um enorme vazio no estômago.
Em síntese meus caros, ouso dizer que Battle Royale é único, atemporal e intenso. É uma montanha-russa de emoções conflitantes para quem se aventura em suas linhas impregnadas com o sangue dos 43 alunos.

