quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Battle Royale - Uma história que você vai odiar amar





Sinopse: "Em 1997, o jornalista e escritor japonês Koushun Takami sofreu uma grande decepção. O manuscrito de seu romance de estreia havia chegado à final do Japan Grand Prix Horror Novel, concurso literário voltado para a ficção de terror, mas acabou preterido. Não era para menos. Embora habituado a tramas assustadoras, o júri se alarmou com a história do jogo macabro entre adolescentes de uma mesma turma escolar que, confinados numa ilha, têm de matar uns aos outros até que reste apenas um sobrevivente. Detalhe: o organizador da sangrenta disputa é o próprio Estado japonês, imaginado pelo autor como uma totalitária República da Grande Ásia Oriental. O livro, intitulado 'Battle Royale', só seria lançado em 1999, espalhando um rastro de polêmica – vendeu mais de 1 milhão de exemplares e foi comentado no Japão inteiro. A repercussão foi tão intensa que apenas um ano depois já eram lançadas as adaptações da história para o cinema e para os mangás – mais tarde, viriam sequências tanto na tela grande como nos quadrinhos." (Fonte: http://www.saraiva.com.br/battle-royale-6950381.html - acessado em 27/01/2016 às 16h38min)



Como conheci: Já fazem alguns anos que parei de comprar e colecionar mangás. "N" motivos me levaram a parar de aumentar minhas coleções, seja a vida universitária (leia-se dureza econômica), estágios e outros demais pormenores que te batem na cara e que fazem parte da adorável vida adulta.
Contudo, quando meus cabelos eram longos e eu comparecia religiosamente na banca de revistas da rodoviária de Araranguá (que infelizmente já fechou =/), uma das obras que comecei a colecionar foi justamente Battle Royale. Foi iniciar a leitura e me apaixonar pela trama! Infelizmente eu nunca consegui terminar a coleção e por consequência fiquei anos sem saber o final.

Alguns anos depois (e alguns centímetros de cabelo a menos) eu pus minhas mãos na obra que deu origem ao mangá, o livro de Shun Takani, o qual teço essa nada pequena resenha.



Resenha: Apear de ter uma visão de mundo bem abrangente, sou um apaixonado por obras que sigam uma linha maniqueísta. Capa e espada, bem x mal são coisas que enchem meus olhos em livros e quadrinhos. Em suma, eu gosto de heróis e do bom e velho clichê.

Não raras vezes me aventuro em outros gêneros, procurando por agradáveis surpresas. BR foi um desses casos. O próprio autor o classifica como sendo um pulp, mas mesmo que não o fizesse, o livro grita isso. Contudo, não se engane achando que se trata de non sense "tarantinesco" com violência gratuita, o buraco é bem mais em baixo.

A trama se passa em uma realidade distópica, em que um governo ditatorial mantém um experimento militar denominado "O Programa", onde praticamente todo ano uma turma do primeiro ano ginasial é escolhida de forma aleatória para participar. Sem entrar muito nos detalhes, o Programa consiste em deixar tal turma em uma região desabitada, dando para cada aluno uma bolsa com suprimentos e o mais importante, uma arma (que pode ser qualquer coisa, inclusive um garfo!). O propósito, como você deve ter imaginado, é que eles se matem até que sobre apenas um sobrevivente. Vou tentar não entrar em muitos detalhes (apesar de querer muito), para não estragar o prazer de devorar as nuances da história, que cada página esconde, porém, preciso fazer algumas considerações importantes.

A primeira coisa que me impressionou e num primeiro momento me fez pensar em desistir da obra, é o ponto de vista em que é narrada. O autor descreve as desventuras (em série) de absolutamente TODOS os 43 estudantes, de forma detalhada, rica e sem pressa. No começo isso pode deixar confuso um leitor mais simplista (para não dizer xucro) como eu, mas persevere! Você acostuma rápido com o ritmo (que lembra um pouco o de Guerra dos Tronos) e quando menos perceber estará viciado no livro. Cada capítulo narrando o ponto de vista de um determinado aluno mostra seu universo particular. Suas personalidades são amplamente exploradas, seus medos e anseios afloram ricamente no desenrolar do livro. As tramas individuais praticamente só se conectam devido ao amor. Apesar de separados e se caçando, muitos deles amam uns aos outros, externando isso em lembranças, devaneios ou ajudando seu amado em meio a matança. Isso mantém a história unida e bem amarrada entre os capítulos.

Mas a história é tão diferentona assim? Não tem heróis? Ah os heróis... Sim eles existem! Para o meu deleite, existem alguns "mocinhos", bem como alguns vilões e muita gente confusa andando na corda bamba da sanidade. Se você é como eu e em todo livro veste a camisa do "time do bem", lamento dizer que você torcerá para um ou outro vilão em determinadas situações, bem como praguejará contra os mocinhos em outras. Essa é a ideia do livro, te deixar com os sentimentos tão confusos quanto aos dos meninos e meninas obrigados a chacinar seus colegas.

Outro ponto marcante no livro é a política. Não apenas sobre o Programa, mas o governo como um todo. Se você chegou até aqui e achou BR parecido com Jogos Vorazes e afins, você está parcialmente certo. O livro de Takami serviu de inspiração para outras obras de mesmo que seguem essa linha. A grande diferença é que BR não traz esperança de derrubar a tirania. Todos os personagens expressam grande ódio pelo governo que os pôs naquela situação, mas se revelam impotentes para derrubá-lo ou criar a revolução e efetivamente lutar por dias melhores. Os jovens são apenas estudantes nadando no sangue de seus colegas, tentando sobreviver a qualquer custo. Curiosamente, apesar do autor não viver em um governo totalitário, a descrição acerca da opressão estatal é muito vívida, sendo anestesiada em algumas passagens pelo "sonho americano" e por letras de rock como filosofia de vida.

Assim como em Guerra dos Tronos, não se apegue a personagens, pois eles vão e vêm. Quando vão, a frustração é grande demais. Novamente, essa é a intenção do autor: Te fazer morder o livro de raiva. Isso faz com que BR seja único e incrivelmente delicioso. É impossível lê-lo sem esboçar uma aquarela de sentimentos conflitantes em um curto espaço de tempo.

Apesar de ser um livro grande (e bota grande nisso), a história é tão fluida e cativante, que as páginas voam entre seus dedos e logo você encerra a obra do mesmo jeito que começou: Como se estivesse levando um belo soco na cara e com um enorme vazio no estômago.

Em síntese meus caros, ouso dizer que Battle Royale é único, atemporal e intenso. É uma montanha-russa de emoções conflitantes para quem se aventura em suas linhas impregnadas com o sangue dos 43 alunos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Desventuras em Série - Você não costuma chorar? Pois você vai









Sinopse: "'Mau começo' é o primeiro volume de uma série em que Lemony Snicket conta as desventuras dos irmãos Baudelaire. Violet, Klaus e Sunny são encantadores e inteligentes, mas ocupam o primeiro lugar na classificação das pessoas mais infelizes do mundo. De fato, a infelicidade segue os seus passos desde a primeira página, quando eles estão na praia e recebem uma trágica notícia. Esses ímãs que atraem desgraças terão de enfrentar, por exemplo, roupas que pinicam o corpo, um gosmento vilão dominado pela cobiça, um incêndio calamitoso e mingau frio no café da manhã. É por isso que, logo na quarta capa, Snicket avisa ao leitor: 'Não há nada que o impeça de fechar o livro imediatamente e sair para uma outra leitura sobre coisas felizes, se é isso que você prefere'." (Fonte: http://www.saraiva.com.br/mau-comeco-vol-1-col-desventuras-em-serie-455535.html - acessado em 14/01/2016 às 13h51min)



Como Conheci: O filme de 2003 me abriu as portas para essa saga fantástica. Com Jim Carrey encarnado como Conde Olaf e uma ambientação e figurinos bem caricatos, a película me conquistou pelo humor ácido. Tempos depois descobri que a obra era a adaptação de uma série de treze livros. Meus olhos brilharam e minha vontade de tê-los foi imediata, apesar do box ter um preço bem salgado eu passei anos cobiçando essa coleção.
Imagine então a minha alegria quando vejo o box da saga na mesa da sala, presente dado pela Dona Patroa. Fiquei empolgado em me embrenhar naquela história que eu havia conhecido apenas na adaptação. Mal sabia eu quantas desgraças e tristezas me aguardavam de forma sorrateira entre aquelas páginas. Assim como Lemony Snicket faz reiteradas vezes em seus livros, o advirto para fechar este blog o quanto antes. Faça qualquer outra coisa animadora e feliz que não ler essa desventurada resenha.



Resenha: Lamento que você tenha sido cabeça dura (uma expressão que aqui significa "teimoso demais para fazer algo mais saudável e alegre com seu tempo livre") em continuar lendo, por isso lhe dou uma pesarosa congratulação. O cumprimento, por assim como eu ter se interessado na desgraçada história dos irmãos Baudelaire, mas lhe dou também os meus pêsames, haja vista que assim como eu, você ter se interessado na desgraçada história dos órfãos Baudelaire.

Assim como muitas coisas ruins, o martírio dos três órfãos começa em um dia sombrio, em uma praia cinzenta. Violet,  Klaus e Sunny recebem a terrível notícia que seus pais pereceram em um incêndio que consumiu toda a mansão da família. Não sendo tal fato trágico o suficiente, eles são mandados para serem cuidados por um parente distante chamado de Conde Olaf. Uma ator de prestígio e caráter altamente duvidosos. Enquanto a trama se desdobra, vê-se que Olaf almeja unicamente roubar a fortuna dos Baudelaire. Antes que você pragueje meu nome, isso não é necessariamente um spoiler, pois os treze livros giram em torno disso. O grande plot da série é ver como os órfãos escapam das garras de seu tutor, plano maligno após o outro.

Os livros possuem uma escrita bem clara e de leitura rápida, em linguagem muito acessível, exceto por alguns termos complexos ou latinos, colocados propositalmente e que vão sendo esmiuçados por Snicket durante cada livro, quase como se tal termo fosse um mote daquela obra.

Inicialmente eu até pensava ser uma saga de livros infantis, dada a premissa maniqueísta e absurdamente lúdica. Ledo engano, Desventuras em Série se lido para crianças, serve apenas para traumatizá-las. Traumatiza adultos também, todo mundo fica abalado, é uma daquelas coisas impossíveis de classificar uma indicação etária para seu acesso, dada a sua profundidade.

O melhor que posso fazer para exprimir uma definição para DeS, é chamá-la de "obra infantil para adultos". Sendo assim, Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler) passa as frustrações e temores dos jovens Baudelaire na visão infantil deles, porém contada pelo próprio autor que segue o rastro dos lugares por onde os irmãos passaram, investigando seus infortúnios.

Essa linha de narrativa dá escopo para uma grande crítica social. Crianças não são ouvidas pelos adultos e isso é fato. Mesmo na iminência de grande perigo, sua fala e súplicas são negligenciadas ou ignoradas, seja pelo simples fato de serem crianças, ou pela presunção dos adultos em crerem que estão no comando de determinada situação (mesmo quando na verdade estão dançando nas mãos de um sádico incendiário com um olho tatuado no tornozelo). 

Snicket, com uma sutileza infantil aborda temas seríssimos, como violência intrafamiliar, abuso, o abandono estatal e o descaso da própria sociedade em relação a crianças em situação de risco, travestindo tais mazelas em pura fantasia e humor melancólico. Repito, Desventuas em Série não é uma coleção indicada para crianças (nem para alguns adultos).

Aqui abro um parêntesis sobre a própria realidade brasileira. Apesar de sermos signatários da Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU (Decreto nº 99.710/1990), e termos em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) que prevêem a proteção integral da criança e do adolescente, há um sem número de jovens Baudelaire vivendo amordaçadas por suas famílias ou responsáveis, sofrendo todo o tipo de violência e maus-tratos. Olaf é uma caricatura que beira o absurdo da maldade, mas muitos de seus comportamentos são vistos no mundo real, tais como obrigar as crianças em tarefas árduas, humilhá-las e mantê-las em condições insalubres para viver por exemplo. Mais revoltante que a violência, é a apatia e omissão tanto do Estado quanto da sociedade quando as crianças tentam denunciar os crimes de seu tutor. 
Assim como na vida real, Estado e sociedade consideram que tais denuncias são "birra de criança", ou que não devem interferir, pois a educação dos pequenos é direito sagrado dos pais ou responsáveis. Tal omissão faz com que tanto os jovens Baudelaire, quanto as crianças de carne e osso passem a se calar e sofrer em silêncio. Seja por medo de represálias ou por simplesmente descrença de que alguma ajuda de fato virá. 

Não é nada raro em processos que se investiga crimes praticados contra crianças, observar relatos de que a violência não foi pontual, sendo praticada de forma reiterada por meses e até anos, sendo descoberta (quando é) por outro adulto (muitas vezes o professor, o médico ou outra pessoa de fora do convívio familiar) que então leva o caso à luz das autoridades. A morosidade em proteger a criança se dá em grande parte pois quando a vítima tenta contar sua dor para outros adultos da família ou de seu convívio, ela é descredibilizada devido a estima que as pessoas tem para com o abusador, pensando que "ele jamais faria isso, é uma pessoa honrada e trabalhadora", pesando a palavra do agressor em detrimento da vítima, única e simplesmente por ser criança. É como se o infante fosse considerado um cidadão de segunda categoria e sua  fala tivesse peso inferior ao de um adulto.

Infelizmente nem todas as crianças são inventivas como Violet, ou sapientes como Klaus, tampouco possuem dentes tão afiados quanto os de Sunny para poderem se livrar dos abusos e escapar do terror em que vivem. Por isso as obras de Handler são tão importantes para que se faça uma reflexão bastante séria. Estamos mesmo cuidando de nossas crianças? Nós quanto sociedade estamos dando a devida atenção para isso? Em uma época em que a violência é banalizada e a hiper sexualização é difundida de maneira precoce e desmedida, Desventuras em Série serve para nos deixar muito desconfortáveis, exatamente para nos forçar a pensar.

Como mencionei no início, Lemony Snicket estimula seu leitor a desistir de sua obra em todos os volumes, mais de uma vez por livro. Em alguns casos até sugere que você o queime, jogue fora dentre outras atrocidades engraçadas. Além de ter o efeito de quebrar a tensão na história, é uma gostosa interação com o autor que também esconde cartas secretas entre as páginas e conversa por algumas vezes com o leitor.

Outro ponto alto dessa tragicomédia são os disfarces. Inicialmente Conde Olaf assume fantasias absurdas para se aproximar dos órfãos. De tão esdrúxulos que são seus personagens, sua figura assume certo ar cômico, suavizando a figura do vilão absoluto.

Para não me estender muito mais, o final de DeS é perfeito e condiz com tudo o que a obra constrói ao longo dos treze livros. É como a vida, onde não existem vilões nem heróis, existem apenas pessoas e suas motivações. Eu demorei um bocado de tempo para digerir a série, até cheguei a ficar revoltado com o final escrito, mas depois de ponderar bastante e fazer um paralelo sobre o que eu estava passando na minha vida e o dito final, eu abri um sorrisão e saquei a idéia proposta: A vida em si é uma enorme desventura.

terça-feira, 3 de junho de 2014

The Iceman - (O Homem de Gelo Confissões de um Matador da Máfia) 2007 - Biografia de um funcionário do mês da Máfia ítalo-americana



Sinopse: Esta é a biografia de Richard Leonard Kuklinski, que exerceu a profissão de matador de aluguel por quarenta e três anos e executou mais de 200 pessoas sob a tutela da máfia de New Jersey. 'O homem de gelo' é fruto de mais de 240 horas de entrevistas frente a frente com Kuklinski na Penitenciária Estadual de Trenton. O autor Philip Carlo divide a obra em cinco capítulos e mostra como era a relação de Kuklinski com seus pais e irmãos, os primeiros trabalhos para a máfia, os assassinatos com requintes de crueldade, a profissão, a relação com seus filhos, esposa e, finalmente, a prisão. Richard Kublinski recebeu o apelido de homem de gelo porque deixava algumas de suas vítimas em um congelador, retirando-as depois de alguns dias. Deste modo os investigadores não conseguiam precisar quando o crime havia sido cometido. Mas qual seria a causa de tanta crueldade? O que aconteceu com Richard Kuklisnki para que ele viesse a se transformar no homem de gelo?





Como Conheci: Antes de ler sua biografia, eu nunca havia ouvido falar em Richard Kuklinski ou de seus crimes, mas eis que estou passando por uma feira literária na faculdade e vejo o dito cujo (adoro essa feirinha, livros incrivelmente bacanas por 10 reais). Primeiro dou uma encarada, pego na mão, dou uma corrida de olho na contracapa e enfim levo para casa. Comecei a lê-lo em 1º de novembro de 2012, mas deixei de lado por preguiça, e finalmente acabei neste ano.



Resenha: Toda a história de vida de Richard Kuklinski é de certa forma um ensaio comprovando que o homem é produto do meio em que vive. Nascido em uma família pobre (o que não é demérito, diga-se de passagem) e emocionalmente desequilibrada, com um pai alcoólatra, e uma mãe religiosa (no pior sentido possível), ele desde cedo foi condicionado a ver o mundo como um sobrevivente, em que os mais fortes e os mais inteligentes abocanham os fracos e tolos. Não é difícil somar uma infância conturbada, pais cruéis e relapsos, com um talento nato à violência. O resultado disso é um dos mais geniais e cruéis homicidas seriais da história moderna.

Pessoalmente gosto de dividir o livro em três fases bem distintas e heterogêneas: Richard jovem, adulto, e por fim preso. A primeira aborda toda sua infância humilde, a figura paterna violenta que o influenciou muito em sua formação e o começo de sua longa trilha criminosa, dos pequenos roubos, à produção de pornografia. Apesar de manifestamente odiar o pai, é inegável ao fazer a leitura, reparar semelhanças entre eles, o próprio autor Philip Carlo acaba por comentar essa peculiaridade. A parte em que trata da juventude de Richard mostra um jovem extremamente violento e irascível, com uma vontade insaciável em ganhar dinheiro, e um dom ainda maior em gastá-lo. Os hormônios da idade unidos ao perfil agressivo o fazem começar a trilhar o caminho da criminalidade, e a treinar, sim, treinar de modo empírico, meios e formas de praticar assassinato. Essa habilidade em matar de tantas formas diferentes, sem se apegar a nenhum ritual ou fetichismo, é uma das características que o tornaram tão singular e difícil de ser capturado posteriormente.

Em sua transição à vida adulta, Richard casa-se, e constitui família. Sua relação com esposa e filhos é como uma pintura. Tudo o que ele procurava era uma família perfeita e feliz, mas quando algo fugia a seu controle ou o contrariava, acabava por descontar sua raiva em tudo e todos, principalmente em sua esposa. A família era feliz apenas por fora, para os vizinhos, mas por dentro vivia em um temor constante. Ele provia tudo (e até um pouco mais) o que sua família queria e pedia. Ele tinha um senso arcaico de mantenedor da prole, como um legítimo patriarca. Apesar de gastar fortunas em jogatinas, sua família era prioridade, sempre "trabalhando" mais e mais para que não lhes faltasse conforto. Nessa fase da vida é que Richard fica extremamente ativo nos "negócios", chegando a trabalhar de forma independente para todas as cinco famílias mafiosas de Nova Jersey, cumprindo contratos de assassinato da forma como o cliente deseja. Tiros, facas, "acidentes", até mesmo usando ratos (eu disse ratos mesmo). Ele não possui emoção, prazer ou repúdio pelo trabalho, ele trata a vida de suas vítimas como a papelada em um escritório, uma mera tarefa a ser cumprida a fim de lhe render dinheiro.

Sua frieza e ausência quase completa de valores é notável, mas em algumas passagens do livro observa-se uma certa noção de moralidade, talvez podendo ser chamada de ética, quando ele por mais de uma vez recua-se a matar mulheres e crianças. Há uma parte em que o grande e brutal vilão torna-se o "mocinho", abatendo de graça um traficante de crianças. É uma das poucas vezes em que se observa o Homem de Gelo tendo peso na consciência e se compadecendo de alguém. Em alguns momentos percebe-se que de fato seu fraco são as crianças. Ele fazia tudo para agradá-las ou ajudá-las, talvez uma forma de evitar que outras crianças tenham uma infância torta e corroída como a dele. 

Na terceira e última fase, há todo o engenho para se capturar o temível Richard Kuklinski. Forma-se uma enorme força-tarefa e uma operação elaborada para ludibriá-lo. É até irônico que justo nessa época, é que Richard menos estava "ativo" nos assassinatos, cuidava mais de golpes de outra sorte, e até cogitava se aposentar, entrar para a legalidade. Causa estranheza que um homem sempre tão cuidadoso em seus atos, mesmo os do cotidiano, tenha se deixado enganar de maneira tão fácil, provável que tenha sido justamente pela suspeita de estar sob os olhos das autoridades, que ele tenha se desleixado. O fato é que fora capturado, e não vou entrar em mais detalhes para não fazer a leitura perder o brilho. O interessante desse momento da vida de Richard, é como ele fica na prisão, cumprindo duas prisões perpétuas, ele que era tão apaixonado por sua esposa, lhe dá o divórcio e manda que nem ela, nem nenhum de seus filhos o visitem na prisão, pois não queria os envergonhar mais. O ímpeto machista de provedor da família permanece, ainda que enclausurado. Richard tenta na medida de suas possibilidades, afastar sua família de sua ruína pessoal.

Em suma, Richard Kuklinski fora uma das figuras criminosas mais controvertidas do século passado, sua ausência de sentimentos para com as vítimas, e seu profissionalismo sangrento o tornaram tão interessante que a HBO fez uma série de documentários e entrevistas enquanto ele estava preso. Recentemente até um filme fora lançado contando parte de sua vida. Apesar de bem produzido, a película tem um roteiro pobre e desengonçado, desperdiçando ótimo material, para fazer apenas um blockbuster que male male vai ser para DVD.

Indico ou não Indico: Sem dúvida é um dos livros mais interessantes que já pus os olhos, indico sem sombra de dúvidas. Se você conseguir ignorar e relevar as pitadas de sensacionalismo que são salpicadas aqui e acolá, a leitura é muito boa e cativante.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Captain America The Winter Soldier (Capitão América O Soldado Invernal) 2014 - SPOILER! Steve Rogers não é o Soldado Invernal!



Sinopse: Após os cataclísmicos eventos em Nova York com Os Vingadores - The Avengers da Marvel, Capitão América 2: O Soldado Invernal encontra Steve Rogers, também conhecido como Capitão América, vivendo tranquilamente em Washington, DC e tentando se ajustar ao mundo moderno. Mas quando um colega da S.H.I.E.L.D. é atacado, Steve se vê preso em uma rede de intrigas que ameaça colocar o mundo em risco. Unindo forças com a Viúva Negra, o Capitão América luta para expor a grande conspiração enquanto enfrenta assassinos profissionais enviados para silenciá-lo a todo momento. Quando a dimensão da trama maligna é revelada, o Capitão América e a Viúva Negra pedem ajuda a um novo aliado, o Falcão. Contudo, eles logo se veem enfrentando um inimigo formidável e inesperado — o Soldado Invernal.

Fonte: http://www.marvelbrasil.com/capitao-america-2-o-soldado-invernal (acessado em 15/04/2014 às 12h10min).

Como Conheci: Nunca fui muito fã do Capitão América, nunca parei para ler os quadrinhos, nem assisti as animações, mas simpatizo com a idéia do herói e do arquétipo de "paladino" que ele representa. Assisti ao primeiro filme apena para dar umas beijocas em uma moçoila que estava em minha companhia (e confesso que me arrependo um pouco, pois é um filme bem bacana), e posteriormente assisti ao filme dos Vingadores em que o Capitão divide espaço com os outros heróis de peso da Marvel. Confesso que fui ao cinema assistir a sequência do filme do Capitão, mais para fazer companhia a minha namorada, do que por vontade de ver o filme na telona. Fico feliz que a patroa seja fã do Steve Rogers, porque o filme é DUCA!

Resenha: Eu não dava muita coisa pelo filme. Esperava muita explosão, pancadaria, umas piadinhas aqui, um escudo voando em 3D na minha cara acolá, e uma chuva de roteiro clichê do bem versus  mal. Bom, o filme tem tudo isso, mas é tudo muito bem trabalhado sem te deixar entediado ou cansado do conteúdo visualmente massante de ação, e o mais bacana, o herói mais clichê e maniqueísta da Marvel tem o filme com roteiro com plot menos preto no branco de todos!

Nos é reapresentado o capitão com sua moral ilibada e radiante (representado por uma atuação bem mediana do Chris Evans), nada muito diferente do primeiro filme, talvez apenas por estar com duas gotas a mais de bom humor. Ao seu lado está a Viúva Negra, que nesta sequência apresenta-se mais acessível, sem aquele charme denso e misterioso que são tão marcantes em filmes anteriores (como Homem de Ferro 2 e Vingadores), contudo sem perder a beleza e o vigor da personagem.  Por fim, um Nick Fury bem ativo e atuante, nada muito diferente do já visto em outras películas. Em contraponto a eles está o Soldado Invernal (aquele com a estrelinha do PT no braço esquerdo, coincidência em pleno ano eleitoral? Você decide*), que traz o extremo oposto do protagonista, sendo frio não só no nome, mas em suas ações desprovidas de raiva, maldade ou sadismo. Ele comete suas atrocidades sem qualquer emoção ao fazê-las, tratando apenas de cumprir sua missão, sem fazer qualquer juízo de valor.

Todos esses personagens são colocados em um tabuleiro de conflito entre SHIELD e Hydra, as grandes organizações conflitantes no universo da mitologia cinematográfica dos filmes do Capitão América. O filme começa e a sensação que ele passa é que será um um grande e mediano clichê, como já dito acima, e apesar de seguir por essa linha, com direito a final feliz e tudo o mais que o universo Marvel pode proporcionar, fiquei bem surpreso quando "quebraram" a santidade da SHIELD, bem como da decisão do Capitão ante a isso, que por obvio não irei comentar para não estragar a experiência de assistir ao filme.

Dito isso, reforço que é interessante ver o ímpeto paladinesco do Capitão em restaurar a paz sem medir consequências, o que é de sua natureza, mas que no conjunto da obra soa bem "inovador".

Indico ou não indico: Claro! O filme é excitante para sua criança interior, e até aguça um bocado seu senso crítico, caso você seja mais caxias. Apesar da porradaria desmedida, e do humor bobo, a premissa é interessante e bem envolvente.

P.S.: O filme já até saiu em DVD, tá quase passando na Sessão da Tarde e eu to resenhando, mas é isso aí!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Oldboy (Dias de Vingança) 2013 - Remake norte-americano, de um filme coreano, e com qualidade paraguaia



Sinopse: Oldboy segue a história de um executivo (Josh Brolin) que é sequestrado e mantido em cativeiro por 20 anos sem ter qualquer indicação dos motivos do seu sequestrador. Quando ele é inexplicavelmente solto, embarca em uma missão obsessiva para descobrir quem orquestrou o seu bizarro e torturante castigo, apenas para descobrir que ainda está preso em uma teia de conspiração e tormento. A sua busca por vingança o leva a um infeliz relacionamento com uma jovem assistente social (Elizabeth Olsen) e finalmente a um homem misterioso (Sharlto Copley) que alega ter a chave para a sua salvação.


Fonte: http://www.cineplayers.com/filme/oldboy--dias-de-vinganca/14816 (acessado em 07/04/2014 às 21h19min)

Como Conheci: Tive contato com referências do filme coreano já há muito tempo, quando do auge da fase  "nerd" em minha adolescência, porém nunca o havia assistido de fato. Apenas fui formalmente apresentado a obra através do meu bom amigo Jairo, que sentou do meu lado e viu comigo a obra de Chan-Wook Park em uma madrugada  bem agradável. Depois disso procurei o mangá (que infelizmente não consegui terminar de ler), e fiquei encantado tanto com o filme, quanto com sua versão desenhada. Quando fiquei sabendo que fariam um remake, fiquei sentindo um misto de curiosidade e receio. Meu segundo instinto estava certo.

Resenha: Há um bom tempo rolava na internet um boato de que Will Smith incorporaria o protagonista Oh Dae-Su, em um possível remake de Oldboy, porém os anos passaram e eu sempre achei que isso seria uma piada ou especulação, tão crível quanto a própria possibilidade de fazerem uma versão americana da película de 2003.

Quando em idos do ano passado eu trombei com a notícia de que um remake estava realmente em produção (mas sem Will Smith), fiquei bem surpreso, mas também como já dito, receoso de que fosse apenas mais um blockbuster usando um nome de peso, feito apenas para arrecadar dinheiro. Quando os trailers começaram a sair, até acreditei que tinha queimado a língua, o filme parecia bem feito, uma história relativamente diferente do filme coreano, mas com aparente qualidade. Fiquei bastante empolgado, e até ansioso para assistir a película e tecer uma resenha metendo o pau em quem não gosta de remakes ou reboots, e faz pré-julgamento dessas obras. Não só não farei isso, como também vou tomar um forcado e uma tocha em minhas mãos e me juntar aos demais odiadores. Que filme horroroso!

Primeiramente, friso que não vou fazer injustas comparações usando a obra coreana como unidade de medida para se aferir a qualidade do remake. Seria injusto e desproporcional. Vou tentar (se minha desilusão permitir) analisar a obra pelo o que ela me foi apresentada.

Eu já disse, repito e reafirmo sempre que posso, que sou um amante incondicional dos chavões, finais felizes e clichês. Acho-os divertidos, considero-os um escapismo saudável da realidade crua e triste em que vivemos, porém tudo tem um limite.

Esta versão de 2013 de Oldboy começa engatilhando um velho chavão hollywoodiano em que um personagem com péssimo caráter, mesquinho e egoísta passa por um processo doloroso e sacrificante, expiando suas culpas, caindo em redenção e então tornando-se um ser humano melhor. A idéia do filme até que é boa, que soma esse elemento a realidade do homem médio (preguiçoso, egoísta e ganancioso) sendo confrontado de forma quase que cármica pelos seus pecados, isso, apesar de já bem batido, é uma fórmula de sucesso de bilheteria para o grande público ocidental, o grande problema é a execução do filme, que beira o ridículo.

Por mais de uma vez, é perceptível durante o filme, que a idéia principal não era fazer uma releitura da obra coreana, ou uma nova construção em cima dela, mas sim uma tentativa frustrada e mal feita de ser o filme original. As lutas, tão bem coreografadas, marca registrada da obra original, são imitadas de forma pobre e artificial, espirrando sangue digital na cara do telespectador. A dramaticidade e agonia causados por cenas extremamente pontuais de tortura ou relação interpessoal dos personagens, muito bem utilizados no clássico de 2003, são substituídas por uma falsa seriedade da trama, e pelo nonsense de Samuel L. Jackson (que caiu de para-quedas na história), interpretando um personagem genérico e excêntrico, como acontece em quase todos os seus filmes recentes.

O filme tem uma fluidez forçosa e também artificial, tudo ocorre muito rápido, muito fugaz, o que esgota qualquer chance de se criar um clima (sim, um clima, filmes também podem tem isso) propício a abraçar o mistério e os enigmas propostos pela própria história.

Entrando nessa idéia, o mistério e o segredo envolvendo a enclausuramento do protagonista,  que são basicamente a chave do plot da película, são relembrados ao espectador constantemente, como se o roteiro considerasse que o público não consegue guardar a informação durante o filme. Isso só aumenta a sensação de algo forçado e mastigado. Estragando qualquer tentativa de se cultivar algum sentimento de apreensão  ou dramaticidade naquele que assiste ao filme.

O "vilão" apresentado, é muito mal explorado e executado. A atuação parece saída de um filme do Austin Powers, a eloquência é bem semelhante a um antagonista de filme antigo do James Bond, um verdadeiro pastelão, parecendo até que fora feito assim de propósito. Digo que fora também mal executado, pois todo o enigma que envolve seus motivos para prender Joe (o protagonista) são muito ricos e profundos, nisso eu tenho que dar o braço a torcer. No final do filme, quando tudo vem as claras, há uma reviravolta muito boa, eu mesmo fiquei surpreso, esperando como seria feito, pois logo nos primeiros minutos de filme, eles descartam a premissa de plot do filme de original.

Joe, o protagonista, mostra-se quase que apático em muitas situações, em uma tentativa de parecer frio ou controlado, como Oh Dae-Su na pelicula oriental era. Quando há rompantes que exigiriam forte demonstração de emoção na cena, o ator (Josh Brolin), tenta o mais que pode acompanhar o ritmo, mas não o faz muito bem, dando apenas duas opções de comportamento ao personagem: Bêbado ou brigão. Mesmo quando a cena demanda uma emoção diversa, ele atua parecendo o bêbado, mas com ânimo de brigão, sempre atento, sempre vigoroso (me lembrando em alguns momentos os filmes de Jason Statham). Não sendo lá muito convincente, e ineficaz para um filme com uma trama tão densa.

Apesar das boas intenções, e de uma construção até louvável de roteiro (inclusive me surpreendendo com o plot final bem bacana, diga-se de passagem), o filme peca em sua execução. O timing é desconexo, as cenas ocorrem apressadamente, talvez com o ânimo de não "entediar" o seu público alvo, a coreografia é horrenda por ser puramente mal feita e artificial, e a atuação dos personagens é bem mediana, sem qualquer expressão ou emoção, o que basicamente deveria ser a essência do filme.

Oldboy (o de 2003), apesar de possuir um culto bem grande pela comunidade dita nerd, não é um filme cult ou "cabeça", cheio de rococós para você filosofar e discutir no seu círculo intelectualóide. É um excelente filme, bem feito e bem executado (porém, isso é tema para a resenha do filme original). Digo isso para que não se pense que estou criticando o filme de 2013 por meramente ser um remake (de má qualidade), mas o faço pelo simples fato do filme de Spike Lee ser verdadeiramente sem graça, ruim.

Em resumo, pegaram um boneco do Comandos em Ação, arrancaram sua cabeça, e tentaram colocar a de uma Barbie no lugar. É um roteiro delicado e com certa qualidade, em uma estrutura abrutalhada, e atrapalhada. Isso é o Oldboy norte-americano, uma tentativa frustrada de ser outro filme.

Indico ou não indico: Indico se você quiser usar chamar sua paixonite para "ver um filme lá em casa" em um dia chuvoso, com segundas intenções. Afinal, você pode deixar o filme rolando, não prestar atenção, dar uns amassos, e ainda assim, no final você terá compreendido toda a história. Fora isso, não indico, ainda mais se você for um entusiasta do original coreano.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Os Heróis do Olimpo - Percy Jackson VS O que sobrou da mitologia grega



Sinopse: Novos e conhecidos personagens do Acampamento Meio-Sangue dividem espaço nesse primeiro volume da série Os heróis do Olimpo. Rick Riordan volta ao universo de Percy Jackson e os Olimpianos com ainda mais aventuras, humor e mistério. Depois de salvar o Olimpo do maligno titã Cronos, Percy Jackson e seus amigos trabalharam duro para reconstruir seu mais querido refúgio, o Acampamento Meio-Sangue. É lá que a próxima geração de semideuses terá de se preparar para enfrentar uma nova e aterrorizante profecia. Os campistas seguirão firmes na inevitável jornada, mas, para sobreviver, precisarão contar com a ajuda de alguns heróis, digamos, um pouco mais experientes - semideuses dos quais todos já ouvimos falar... e muito. (Sinopse do livro O Herói Perdido)

Fonte: http://www.skoob.com.br/livro/111150-o_heroi_perdido (acessado em 01/04/2014 às 23h50min)

Como Conheci: Li a coleção Percy Jackson & Os Olimpianos já fazem alguns anos, creio que quando eu estava no começo da faculdade, ou até mesmo um pouco antes disso, e me lembro de ter gostado bastante. A trama simples, porém envolvente e cativante, aliados a uma narrativa rápida, fluida e com boas reviravoltas me proporcionaram bons momentos de leitura prazerosa e despreocupada.

Quando soube que haveria uma "continuação", ou melhor dizendo, um alargamento no universo criado por Rick Riordan, fiquei um pouco ressabiado, e até resistente, acreditante que seria apenas um engodo para fazer dinheiro em cima de uma franquia de sucesso. Ledo engano. Apesar da minha inicial desconfiança, li o primeiro capítulo de O Herói Perdido (primeiro livro da série) há alguns anos e até achei interessante, mas deixei de lado por motivo que já não me lembro (provavelmente porque tinha outros livros na frente para ler). Contudo, nesses últimos meses me embrenhei em ler (devorar na verdade) os quatro livros lançados até agora e farei resenha dos quatro numa tacada só, e lá vai!

Resenha: Fazendo um apanhado geral da visão que tive com essa nova saga, série, aventura, ou qualquer nomenclatura do tipo que se possa dar a essa coleção que querendo ou não, acaba revelando-se como uma continuação aos fatos passados por Percy em Os Olimpianos, posso afirmar sem sombra de dúvidas ou peso no coração de que essa nova saga tem um quê de mais do mesmo, o que não é algo necessariamente ruim, como explicarei melhor adiante.

O autor apresenta vários personagens novos, com personalidades bem distintas, fato que que se percebe bem pela disposição dos capítulos, escritos e dispostos sob o ponto de vista do próprio personagem, e vão alternando de um personagem para o outro em cada capítulo, é o famoso POV (point-of-view, ou ponto de vista, em tradução livre), bastante popular na atualidade por ser usado nas Crônicas de Gelo e Fogo de George Martin.

Ainda falando dos personagens, existem dois claros protagonistas, Jason e Percy, (e há até algumas situações engraçadas em que os dois têm atritos pela liderança e inveja pelo destaque do outro), porém os demais heróis apresentados não são esquecidos como meros personagens escada, Riordan trabalha bem a importância de cada um de acordo com seu arquétipo e personalidade, de modo que esse volume de personagens transparece como algo natural, e não um atribulado de nomes saltando das páginas. Vê-se isso de forma mais palpável pelo foco de cada livro, pois O Herói Perdido enfoca o grupo de Jason, sua continuação, O Filho de Netuno, já pauta-se quase que exclusivamente em Percy e seus companheiros, sendo o terceiro e quarto livros (A Marca de Atena e a Casa de Hades, respectivamente) mais balanceados posto que há uma ação conjunta dos personagens apresentados. Esse balanço, aliado a já mencionada narrativa fluida e leve, são o que fazem a série ser tão prazerosa fácil de ler.

Outro ponto bem interessante (que pode ter ou não fins comerciais, jamais saberemos) é que o leitor pode nunca ter tido prévio contato com a primeira série de livros de Percy Jackson, e ler Os Heróis do Olimpo sem qualquer problema. Apesar de ser, de certa forma uma continuação, todo o universo e personagens antigos da trama são reapresentados de forma breve e tênue, porém suficiente para situar o leitor na narrativa. Claro, para quem já leu os livros antigos, vai encontrar um ou outro easter egg que lhe fará esboçar um sorrisinho furtivo de canto de boca, mas para quem é marinheiro de primeira viagem, a leitura não fica de forma alguma prejudicada pelo desconhecimento dos títulos anteriores. Eu mesmo não lembro de boa parte dos primeiros livros e li a nova série aproveitando cada página, sem nenhum problema ou incômodo.

Agora vamos aos contras! Nem tudo são flores nessa série, como eu disse logo no começo, há uma inquietante sensação de mais do mesmo, e não apenas para quem já leu aos livros antigos da franquia, mas esse sentimento também alcança o leitor a partir do segundo livro. Rick Riordan tem uma estrutura (um roteiro, ouso dizer) bem sólida para escrever, e a segue em todos os quatro livros já publicados. Há um começo leve, a anunciação de uma missão, as turbulências e desventuras no seu cumprimento (que comumente tem um prazo bem apertado para ser completada) e no final uma batalha épica e o respectivo final feliz.

Eu sou um entusiasta de carteirinha de clichês, chavões e finais felizes, mas em alguns momentos isso cansa um pouco e faz a trama perder um pouco da emoção pela obviedade escancarada do seu eventual final. Porém, conforme a leitura vai avançando essa sensação vai e volta, o que não torne a leitura ruim, mas fica evidente como ponto negativo à obra.

Outro fato que merece ser mencionado, e essa crítica vai ser melhor identificada aos leitores que tiveram prévio acesso aos trabalhos anteriores do autor no universo de Percy Jackson, é que ele esgota praticamente TODAS as lendas da mitologia grega, sem dó nem piedade. Tudo bem, ele o faz de forma adaptada ao tempo presente, tornando-as caricatas, mas ainda assim, é uma surra de lendas, mitos, monstros e heróis de outrora, que dão além de uma canseira no leitor, uma bela aula de história de mitologia.

A trama não se restringe a apenas esgotar os mitos ainda não mencionados, ela recicla algumas lendas já usadas nos livros da série anterior, bem como faz um amarrado cultural bem interessante com uma cultura conexa (que não vou mencionar porque spoiler é sacanagem). Essa sucessão de lendas em grande quantidade, também acabam por cansar um pouco o leitor, porém essa falha acaba se superando pela forma cômica como o autor as aborda e apresenta.

Apesar de gostar bastante das obras do Rick Riordan, é justo frisar que ele como escritor não é lá muito criativo ou profundo. É literatura infanto-juvenil bem escrita, de fácil acesso e divertida, porém rasa culturalmente, contudo isso não é um demérito, mas apenas a constatação de um fato. Dito isso, é difícil, como eu disse, que o leitor se surpreenda com algum acontecimento na trama, pois o autor é fiel a sua linha (roteiro) de escrita. Entretanto, o danado dá uma rasteira no público, quando aborda um tema atual e polêmico, surpreendendo de forma positiva o leitor.

Em um dos livros, o autor revela haver um personagem homossexual. Há uma situação de surpresa pela revelação, mas a reação dos demais personagens é interessante, não há espanto ou repúdio, mas sim compreensão e apoio ao personagem homo. Aborda-se de forma bem sucinta que quem mais tem preconceito é o próprio personagem gay, que de certa forma não se aceita e sofre com isso, mas esse fato, creio eu, será melhor tratado no último livro. É também de se mencionar que acaba-se até criando uma tensão romântica e um triângulo amoroso bem bonitinho entre o personagem, sua paixão platônica, e o companheiro/a desse último/a (o que deve ter deixado as fagirls em polvorosa). 

O que interessa de tudo isso, é a naturalidade com que o tema é apresentado em uma franquia tão despreocupada e limitada. A mensagem que o autor passa é de que não importa a sua sexualidade, isso é apenas uma parte de você, e isso não fará com que seus amigos lhe gostem mais ou menos, ou que você não possa se apaixonar, ou até mesmo ser um herói! Ponto mais que positivo pro Riordan, e um tapa na minha cara, que critico a traminha água com açúcar dele.

Indico ou não indico: Fácil fácil eu indico. Sou suspeito pois adoro esse tipo de literatura, mas pesando os prós e contras da série, seus pontos positivos ganham o leitor pela trama bem amarradinha, bem escrita e de leitura fácil e gostosa. É o tipo de livro que você pega em um dia de chuva, ou tedioso e passa a tarde inteira lendo no sofá, sem perceber as horas passando.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

28 Days Later (Extermínio) - Drama com miolos! Sim! Miolos!



Sinopse: Após invadirem um laboratório de pesquisas em macacos, um grupo de ativistas encontra chimpanzés presos em gaiolas diante de telas que exibem continuamente cenas de extrema violência. Ignorando os avisos de um cientista que trabalha no local de que os macacos estariam infectos, os ativistas decidem libertá-los. Assim que são soltos os macacos atacam todos aqueles à sua volta, em verdadeiros ataques ensandecidos. 28 dias após este acontecimento desperta do coma em um hospital de Londres Jim (Cillian Murphy). Completamente confuso e estranhando a ausência de pessoas nas ruas, Jim nada sabe sobre o ocorrido e se esconde após encontrar diversos cadáveres e seres monstruosos, infectados pelo vírus disseminado. Após uma explosão Jim encontra outros sobreviventes, Selena (Naomi Harris) e Mark (Noah Huntley), que o levam a um local seguro e lhe explicam a situação atual. Decidido a reencontrar seus pais, Jim decide partir e é acompanhado pela dupla de novos companheiros. Até que, ao se refugiarem em um prédio, ouvem uma transmissão pelo rádio de que um grupo de soldados comandados pelo major Henry West (Christopher Eccleston) está se reunindo e diz ter a solução para a cura da infecção provocada pelo vírus. Sem outra alternativa, Jim, Selena e Mark decidem se juntar aos soldados em sua batalha.

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-46940/ (acessado em 31/07/2013 às 10h15min)

Como Conheci: Me lembro de logo que esse filme saiu, havia uma grande especulação em cima dele, pois tinha a promessa de ser algo inovador no gênero zumbis, pois teríamos mortos-vivos rápidos (lembro de ter lido "zumbis maratonistas" em algum lugar), com um tipo diferente de infecção. O que é bacana, deu uma renovada boa nas películas desse tema. 

Nada relativo ao filme ou como conheci, mas continua sendo um fato curioso. Esse filme tinha algum tipo de bruxaria ou implicância comigo, porque é o tipo de filme que eu as vezes vejo passando na TV e, ou pego ele no meio ou não consigo terminar de assistir por dado motivo. E para piorar, não raras vezes já aconteceu de eu estar passando a lista de canais e me deparar com um "28 Dias" e ir seco achando que era ele e BANG! Me deparava com a Sandra Bullock, aí me sentia uma pessoa bem estúpida.

Resenha: Duas coisas das quais eu definitivamente não sou fã e assumidamente tenho preconceito: Filme europeu e filme de drama. Juntar os dois me causa arrepios (ou como diriam de onde vim: "Me dá uns três tipos de medos diferentes"). Porém 28 Days Later foi uma jogada inteligente e um tapa na cara de gente como eu, pois ele é todo divulgado como um mero filme de miolos e de um terror leve, mas quando você o assiste, vê que a argumentação do filme foca mais na questão humana, na sobrevivência e no drama dos personagens, ao invés dos raivosos (que acabam se mostrando como meras engrenagens para fazer a trama funcionar), e a coisa até que flui bem. Toda a produção estética e de roteiro é voltada à essa argumentação dramática. O jogo de câmeras, os focos em paisagens desoladas dos subúrbios ingleses ao amanhecer e ao entardecer principalmente (que serviram bem para dar uma enganada na torcida já que o orçamento foi curto). E até a própria trilha sonora que mistura bastante um rock animado com músicas mais clássicas e melancólicas pontuam o sentimento proposto para cada cena. É o tipo de cuidado que se vê principalmente em filmes de drama e foi muito bem posto no 28 Days.

Falando no tal do drama, vamos à ele. O filme como eu disse antes, constrói uma relação e uma interação muito afinada entre seus personagens, além de apresentar de forma satisfatória as situações que eles enfrentam e vivenciam, claro, sem deixar de lado a questão da luta contra os raivosos. Outra coisa típica dos dramas e do cinema europeu (e um baita ponto positivo, eu diria) é a crueza com que algumas cenas foram rodadas. Sem muita maquiagem e efeitos desnecessários típicos dos filmes de zumbis. Vê-se nudez sem eroticidade, como algo natural à cena, sem fazer grande espanto ou pudores bestas. Vê-se que não há tanto espanto pela nudez pelo fato do filme ter sido lançado lá fora com classificação indicativa de 16 anos, o que é uma surpresa bem agradável. Como a maior parte do filme se passa dando enfoque às relações humanas, a estética do filme (em especial a maquiagem) foi feliz em tentar se manter o mais natural possível.

O interessante nos zumbis(?) (eu prefiro chamar de raivosos porque tecnicamente eles não estão mortos) desse filme, é o fato de serem meros infectados, e portanto matá-los de uma forma "simples", como se mataria um ser humano comum já funcionaria. Isso tornaria os raivosos em tese menos letais, mas o filme em dadas situações acaba forçando a barra e fazendo com que eles sejam máquinas de matar, ainda que você esteja armado até os dentes. Outro fato que corrobora com essa "humanização" dos raivosos, é que aparentemente eles cansam, ou ao menos ficam letárgicos (bem rápido) quando não possuem um alvo, isso não é muito bem explicado, mas ainda assim é um ponto diferenciado.

Apesar do filme transcorrer quase todo como um drama (e isso pode ser um pouco cansativo), 28 Days não teria sido o sucesso que foi sendo um mero drama de sobrevivência. A parte final tem uma reviravolta cheia de ação que agrada aos fãs de miolos, mas que não se encaixa lá muito bem com toda a proposta construída ao longo da película. É uma jogada ardilosa e sacana? Com certeza! Mas sem isso, o filme teria sido um fracasso de bilheteria, então essa "apelação" acaba se justificando pelos fins comerciais.

Não posso resenhar esse filme sem fazer algumas ressalvas: Se você estiver em um apocalipse zumbi (na Inglaterra), só encontrará Pepsi pelo caminho. No hospital, nos mercados e na rua. Nem adianta pedir uma coca!; As ruas e paisagens são ABSURDAMENTE desertas. Em uma situação caótica de evacuação (ou êxodo como é chamado no filme), se esperaria um caos de veículos, depredação nos prédios, comércio e etc, pelo menos nos centros urbanos, o que não é o caso de 28 Days. Aqui tudo é tão vazio que dá aflição e fica difícil crer em uma desolação tão ordenada assim, eu diria que foi um ponto negativo, mas que se justifica pelo baixo orçamento.

Indico ou não indico: Opa! Toda inovação que é bem explorada merece um crédito. E esse filme teve a traquinagem de me fazer gostar de drama, então super indico apesar de ter sido "enganado". É um bom filme até mesmo para se assistir acompanhado. Se eu pudesse classificar 28 Days Later eu diria que ele é como quando sua mãe colocava carne e queijo no meio dos legumes para você comer. Disfarçam um roteiro de drama usando zumbis como pano de fundo para agradar tanto o público europeu que costuma ser exigente por uma boa trama, quanto ao público em geral que vai aos cinemas e espera um blockbuster (em especial pela parte final do filme). No final das contas, é um filme que vale suas quase duas horas de duração.