quinta-feira, 10 de abril de 2014

Oldboy (Dias de Vingança) 2013 - Remake norte-americano, de um filme coreano, e com qualidade paraguaia



Sinopse: Oldboy segue a história de um executivo (Josh Brolin) que é sequestrado e mantido em cativeiro por 20 anos sem ter qualquer indicação dos motivos do seu sequestrador. Quando ele é inexplicavelmente solto, embarca em uma missão obsessiva para descobrir quem orquestrou o seu bizarro e torturante castigo, apenas para descobrir que ainda está preso em uma teia de conspiração e tormento. A sua busca por vingança o leva a um infeliz relacionamento com uma jovem assistente social (Elizabeth Olsen) e finalmente a um homem misterioso (Sharlto Copley) que alega ter a chave para a sua salvação.


Fonte: http://www.cineplayers.com/filme/oldboy--dias-de-vinganca/14816 (acessado em 07/04/2014 às 21h19min)

Como Conheci: Tive contato com referências do filme coreano já há muito tempo, quando do auge da fase  "nerd" em minha adolescência, porém nunca o havia assistido de fato. Apenas fui formalmente apresentado a obra através do meu bom amigo Jairo, que sentou do meu lado e viu comigo a obra de Chan-Wook Park em uma madrugada  bem agradável. Depois disso procurei o mangá (que infelizmente não consegui terminar de ler), e fiquei encantado tanto com o filme, quanto com sua versão desenhada. Quando fiquei sabendo que fariam um remake, fiquei sentindo um misto de curiosidade e receio. Meu segundo instinto estava certo.

Resenha: Há um bom tempo rolava na internet um boato de que Will Smith incorporaria o protagonista Oh Dae-Su, em um possível remake de Oldboy, porém os anos passaram e eu sempre achei que isso seria uma piada ou especulação, tão crível quanto a própria possibilidade de fazerem uma versão americana da película de 2003.

Quando em idos do ano passado eu trombei com a notícia de que um remake estava realmente em produção (mas sem Will Smith), fiquei bem surpreso, mas também como já dito, receoso de que fosse apenas mais um blockbuster usando um nome de peso, feito apenas para arrecadar dinheiro. Quando os trailers começaram a sair, até acreditei que tinha queimado a língua, o filme parecia bem feito, uma história relativamente diferente do filme coreano, mas com aparente qualidade. Fiquei bastante empolgado, e até ansioso para assistir a película e tecer uma resenha metendo o pau em quem não gosta de remakes ou reboots, e faz pré-julgamento dessas obras. Não só não farei isso, como também vou tomar um forcado e uma tocha em minhas mãos e me juntar aos demais odiadores. Que filme horroroso!

Primeiramente, friso que não vou fazer injustas comparações usando a obra coreana como unidade de medida para se aferir a qualidade do remake. Seria injusto e desproporcional. Vou tentar (se minha desilusão permitir) analisar a obra pelo o que ela me foi apresentada.

Eu já disse, repito e reafirmo sempre que posso, que sou um amante incondicional dos chavões, finais felizes e clichês. Acho-os divertidos, considero-os um escapismo saudável da realidade crua e triste em que vivemos, porém tudo tem um limite.

Esta versão de 2013 de Oldboy começa engatilhando um velho chavão hollywoodiano em que um personagem com péssimo caráter, mesquinho e egoísta passa por um processo doloroso e sacrificante, expiando suas culpas, caindo em redenção e então tornando-se um ser humano melhor. A idéia do filme até que é boa, que soma esse elemento a realidade do homem médio (preguiçoso, egoísta e ganancioso) sendo confrontado de forma quase que cármica pelos seus pecados, isso, apesar de já bem batido, é uma fórmula de sucesso de bilheteria para o grande público ocidental, o grande problema é a execução do filme, que beira o ridículo.

Por mais de uma vez, é perceptível durante o filme, que a idéia principal não era fazer uma releitura da obra coreana, ou uma nova construção em cima dela, mas sim uma tentativa frustrada e mal feita de ser o filme original. As lutas, tão bem coreografadas, marca registrada da obra original, são imitadas de forma pobre e artificial, espirrando sangue digital na cara do telespectador. A dramaticidade e agonia causados por cenas extremamente pontuais de tortura ou relação interpessoal dos personagens, muito bem utilizados no clássico de 2003, são substituídas por uma falsa seriedade da trama, e pelo nonsense de Samuel L. Jackson (que caiu de para-quedas na história), interpretando um personagem genérico e excêntrico, como acontece em quase todos os seus filmes recentes.

O filme tem uma fluidez forçosa e também artificial, tudo ocorre muito rápido, muito fugaz, o que esgota qualquer chance de se criar um clima (sim, um clima, filmes também podem tem isso) propício a abraçar o mistério e os enigmas propostos pela própria história.

Entrando nessa idéia, o mistério e o segredo envolvendo a enclausuramento do protagonista,  que são basicamente a chave do plot da película, são relembrados ao espectador constantemente, como se o roteiro considerasse que o público não consegue guardar a informação durante o filme. Isso só aumenta a sensação de algo forçado e mastigado. Estragando qualquer tentativa de se cultivar algum sentimento de apreensão  ou dramaticidade naquele que assiste ao filme.

O "vilão" apresentado, é muito mal explorado e executado. A atuação parece saída de um filme do Austin Powers, a eloquência é bem semelhante a um antagonista de filme antigo do James Bond, um verdadeiro pastelão, parecendo até que fora feito assim de propósito. Digo que fora também mal executado, pois todo o enigma que envolve seus motivos para prender Joe (o protagonista) são muito ricos e profundos, nisso eu tenho que dar o braço a torcer. No final do filme, quando tudo vem as claras, há uma reviravolta muito boa, eu mesmo fiquei surpreso, esperando como seria feito, pois logo nos primeiros minutos de filme, eles descartam a premissa de plot do filme de original.

Joe, o protagonista, mostra-se quase que apático em muitas situações, em uma tentativa de parecer frio ou controlado, como Oh Dae-Su na pelicula oriental era. Quando há rompantes que exigiriam forte demonstração de emoção na cena, o ator (Josh Brolin), tenta o mais que pode acompanhar o ritmo, mas não o faz muito bem, dando apenas duas opções de comportamento ao personagem: Bêbado ou brigão. Mesmo quando a cena demanda uma emoção diversa, ele atua parecendo o bêbado, mas com ânimo de brigão, sempre atento, sempre vigoroso (me lembrando em alguns momentos os filmes de Jason Statham). Não sendo lá muito convincente, e ineficaz para um filme com uma trama tão densa.

Apesar das boas intenções, e de uma construção até louvável de roteiro (inclusive me surpreendendo com o plot final bem bacana, diga-se de passagem), o filme peca em sua execução. O timing é desconexo, as cenas ocorrem apressadamente, talvez com o ânimo de não "entediar" o seu público alvo, a coreografia é horrenda por ser puramente mal feita e artificial, e a atuação dos personagens é bem mediana, sem qualquer expressão ou emoção, o que basicamente deveria ser a essência do filme.

Oldboy (o de 2003), apesar de possuir um culto bem grande pela comunidade dita nerd, não é um filme cult ou "cabeça", cheio de rococós para você filosofar e discutir no seu círculo intelectualóide. É um excelente filme, bem feito e bem executado (porém, isso é tema para a resenha do filme original). Digo isso para que não se pense que estou criticando o filme de 2013 por meramente ser um remake (de má qualidade), mas o faço pelo simples fato do filme de Spike Lee ser verdadeiramente sem graça, ruim.

Em resumo, pegaram um boneco do Comandos em Ação, arrancaram sua cabeça, e tentaram colocar a de uma Barbie no lugar. É um roteiro delicado e com certa qualidade, em uma estrutura abrutalhada, e atrapalhada. Isso é o Oldboy norte-americano, uma tentativa frustrada de ser outro filme.

Indico ou não indico: Indico se você quiser usar chamar sua paixonite para "ver um filme lá em casa" em um dia chuvoso, com segundas intenções. Afinal, você pode deixar o filme rolando, não prestar atenção, dar uns amassos, e ainda assim, no final você terá compreendido toda a história. Fora isso, não indico, ainda mais se você for um entusiasta do original coreano.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Os Heróis do Olimpo - Percy Jackson VS O que sobrou da mitologia grega



Sinopse: Novos e conhecidos personagens do Acampamento Meio-Sangue dividem espaço nesse primeiro volume da série Os heróis do Olimpo. Rick Riordan volta ao universo de Percy Jackson e os Olimpianos com ainda mais aventuras, humor e mistério. Depois de salvar o Olimpo do maligno titã Cronos, Percy Jackson e seus amigos trabalharam duro para reconstruir seu mais querido refúgio, o Acampamento Meio-Sangue. É lá que a próxima geração de semideuses terá de se preparar para enfrentar uma nova e aterrorizante profecia. Os campistas seguirão firmes na inevitável jornada, mas, para sobreviver, precisarão contar com a ajuda de alguns heróis, digamos, um pouco mais experientes - semideuses dos quais todos já ouvimos falar... e muito. (Sinopse do livro O Herói Perdido)

Fonte: http://www.skoob.com.br/livro/111150-o_heroi_perdido (acessado em 01/04/2014 às 23h50min)

Como Conheci: Li a coleção Percy Jackson & Os Olimpianos já fazem alguns anos, creio que quando eu estava no começo da faculdade, ou até mesmo um pouco antes disso, e me lembro de ter gostado bastante. A trama simples, porém envolvente e cativante, aliados a uma narrativa rápida, fluida e com boas reviravoltas me proporcionaram bons momentos de leitura prazerosa e despreocupada.

Quando soube que haveria uma "continuação", ou melhor dizendo, um alargamento no universo criado por Rick Riordan, fiquei um pouco ressabiado, e até resistente, acreditante que seria apenas um engodo para fazer dinheiro em cima de uma franquia de sucesso. Ledo engano. Apesar da minha inicial desconfiança, li o primeiro capítulo de O Herói Perdido (primeiro livro da série) há alguns anos e até achei interessante, mas deixei de lado por motivo que já não me lembro (provavelmente porque tinha outros livros na frente para ler). Contudo, nesses últimos meses me embrenhei em ler (devorar na verdade) os quatro livros lançados até agora e farei resenha dos quatro numa tacada só, e lá vai!

Resenha: Fazendo um apanhado geral da visão que tive com essa nova saga, série, aventura, ou qualquer nomenclatura do tipo que se possa dar a essa coleção que querendo ou não, acaba revelando-se como uma continuação aos fatos passados por Percy em Os Olimpianos, posso afirmar sem sombra de dúvidas ou peso no coração de que essa nova saga tem um quê de mais do mesmo, o que não é algo necessariamente ruim, como explicarei melhor adiante.

O autor apresenta vários personagens novos, com personalidades bem distintas, fato que que se percebe bem pela disposição dos capítulos, escritos e dispostos sob o ponto de vista do próprio personagem, e vão alternando de um personagem para o outro em cada capítulo, é o famoso POV (point-of-view, ou ponto de vista, em tradução livre), bastante popular na atualidade por ser usado nas Crônicas de Gelo e Fogo de George Martin.

Ainda falando dos personagens, existem dois claros protagonistas, Jason e Percy, (e há até algumas situações engraçadas em que os dois têm atritos pela liderança e inveja pelo destaque do outro), porém os demais heróis apresentados não são esquecidos como meros personagens escada, Riordan trabalha bem a importância de cada um de acordo com seu arquétipo e personalidade, de modo que esse volume de personagens transparece como algo natural, e não um atribulado de nomes saltando das páginas. Vê-se isso de forma mais palpável pelo foco de cada livro, pois O Herói Perdido enfoca o grupo de Jason, sua continuação, O Filho de Netuno, já pauta-se quase que exclusivamente em Percy e seus companheiros, sendo o terceiro e quarto livros (A Marca de Atena e a Casa de Hades, respectivamente) mais balanceados posto que há uma ação conjunta dos personagens apresentados. Esse balanço, aliado a já mencionada narrativa fluida e leve, são o que fazem a série ser tão prazerosa fácil de ler.

Outro ponto bem interessante (que pode ter ou não fins comerciais, jamais saberemos) é que o leitor pode nunca ter tido prévio contato com a primeira série de livros de Percy Jackson, e ler Os Heróis do Olimpo sem qualquer problema. Apesar de ser, de certa forma uma continuação, todo o universo e personagens antigos da trama são reapresentados de forma breve e tênue, porém suficiente para situar o leitor na narrativa. Claro, para quem já leu os livros antigos, vai encontrar um ou outro easter egg que lhe fará esboçar um sorrisinho furtivo de canto de boca, mas para quem é marinheiro de primeira viagem, a leitura não fica de forma alguma prejudicada pelo desconhecimento dos títulos anteriores. Eu mesmo não lembro de boa parte dos primeiros livros e li a nova série aproveitando cada página, sem nenhum problema ou incômodo.

Agora vamos aos contras! Nem tudo são flores nessa série, como eu disse logo no começo, há uma inquietante sensação de mais do mesmo, e não apenas para quem já leu aos livros antigos da franquia, mas esse sentimento também alcança o leitor a partir do segundo livro. Rick Riordan tem uma estrutura (um roteiro, ouso dizer) bem sólida para escrever, e a segue em todos os quatro livros já publicados. Há um começo leve, a anunciação de uma missão, as turbulências e desventuras no seu cumprimento (que comumente tem um prazo bem apertado para ser completada) e no final uma batalha épica e o respectivo final feliz.

Eu sou um entusiasta de carteirinha de clichês, chavões e finais felizes, mas em alguns momentos isso cansa um pouco e faz a trama perder um pouco da emoção pela obviedade escancarada do seu eventual final. Porém, conforme a leitura vai avançando essa sensação vai e volta, o que não torne a leitura ruim, mas fica evidente como ponto negativo à obra.

Outro fato que merece ser mencionado, e essa crítica vai ser melhor identificada aos leitores que tiveram prévio acesso aos trabalhos anteriores do autor no universo de Percy Jackson, é que ele esgota praticamente TODAS as lendas da mitologia grega, sem dó nem piedade. Tudo bem, ele o faz de forma adaptada ao tempo presente, tornando-as caricatas, mas ainda assim, é uma surra de lendas, mitos, monstros e heróis de outrora, que dão além de uma canseira no leitor, uma bela aula de história de mitologia.

A trama não se restringe a apenas esgotar os mitos ainda não mencionados, ela recicla algumas lendas já usadas nos livros da série anterior, bem como faz um amarrado cultural bem interessante com uma cultura conexa (que não vou mencionar porque spoiler é sacanagem). Essa sucessão de lendas em grande quantidade, também acabam por cansar um pouco o leitor, porém essa falha acaba se superando pela forma cômica como o autor as aborda e apresenta.

Apesar de gostar bastante das obras do Rick Riordan, é justo frisar que ele como escritor não é lá muito criativo ou profundo. É literatura infanto-juvenil bem escrita, de fácil acesso e divertida, porém rasa culturalmente, contudo isso não é um demérito, mas apenas a constatação de um fato. Dito isso, é difícil, como eu disse, que o leitor se surpreenda com algum acontecimento na trama, pois o autor é fiel a sua linha (roteiro) de escrita. Entretanto, o danado dá uma rasteira no público, quando aborda um tema atual e polêmico, surpreendendo de forma positiva o leitor.

Em um dos livros, o autor revela haver um personagem homossexual. Há uma situação de surpresa pela revelação, mas a reação dos demais personagens é interessante, não há espanto ou repúdio, mas sim compreensão e apoio ao personagem homo. Aborda-se de forma bem sucinta que quem mais tem preconceito é o próprio personagem gay, que de certa forma não se aceita e sofre com isso, mas esse fato, creio eu, será melhor tratado no último livro. É também de se mencionar que acaba-se até criando uma tensão romântica e um triângulo amoroso bem bonitinho entre o personagem, sua paixão platônica, e o companheiro/a desse último/a (o que deve ter deixado as fagirls em polvorosa). 

O que interessa de tudo isso, é a naturalidade com que o tema é apresentado em uma franquia tão despreocupada e limitada. A mensagem que o autor passa é de que não importa a sua sexualidade, isso é apenas uma parte de você, e isso não fará com que seus amigos lhe gostem mais ou menos, ou que você não possa se apaixonar, ou até mesmo ser um herói! Ponto mais que positivo pro Riordan, e um tapa na minha cara, que critico a traminha água com açúcar dele.

Indico ou não indico: Fácil fácil eu indico. Sou suspeito pois adoro esse tipo de literatura, mas pesando os prós e contras da série, seus pontos positivos ganham o leitor pela trama bem amarradinha, bem escrita e de leitura fácil e gostosa. É o tipo de livro que você pega em um dia de chuva, ou tedioso e passa a tarde inteira lendo no sofá, sem perceber as horas passando.