sábado, 10 de novembro de 2012

Tigre, Tigre




Sinopse: Tigre, tigre é o relato de um doentio relacionamento de 15 anos entre Peter Curran (nome fictício), então com 51 anos, e a pequena Margaux, com sete anos, escrito pela própria vítima. Mesclando os traumas que sofreu com as estratégias de sobrevivência que criou para superar a situação, a autora constrói uma narrativa sincera e cruel sobre a perda da inocência. Recém-lançado nos Estados Unidos, o livro ganhou resenha nos principais jornais e revistas do país.


Conheci o livro quando em algum dia eu estava no meu ritual de olhar as notícias no site do G1, eis que vi uma chamada sobre um livro sobre abuso sexual e li um resumo muito sucinto que trazia junto à imagem da capa do dito cujo (muito bonita, diga-se de passagem) que estava na matéria. Pelas breves palavras na notinha do site eu me encantei e quis muito ler a obra, mas tempo vai e tempo vem, grana curta e a demora até o livro chegar às livrarias daqui, acabou que fui lendo outros livros e deixando este de lado, até que em um belo dia estou eu belo, formoso, serelepe e pimpão passeando com meus tios no shopping, acompanhando eles fazendo suas compras. E dentro de uma das lojas meu tio me questiona se eu queria um moletom, já que estava comprando pra ele e pros meus primos, queria dar um para mim também. Eu agradeci, mas disse que preferia um livro, que tinha um lançamento que eu estava de olho e seria de grande ajuda para o tema que eu estava pensando em escolher pro meu TCC. O que bom, é uma baita verdade, mas não vem ao caso. Como uma criança em uma loja da LEGO eu entrei todo animadinho na livraria, pedi um exemplar à atendente e fui direto pro caixa com meu tio, finalizamos as compras, etc, etc e etc. (creio que não fiz meu ritual engraçadinho de pedir pra embalar para presente, mas tudo bem) Devorei o livro em dois dias e virei um expert no assunto? Não. Este não é o estilo Tejada. Depois de comprado o livro, ele ficou mais uns belos meses parado na minha estante, pegando poeira enquanto eu lia mais e mais coisas diferentes de acordo com meus apetites e necessidades imediatas.
            Terminando o livro dois de Crônicas de gelo e fogo eu me decidi finalmente a ler Tigre Tigre. Eu estava com receio e até com um certo medo do livro. Eu não fazia idéia do que me aguardava em cada página, se seria algo pavoroso, grotesco ou horrendo, entretanto fui surpreendido de um jeito estranho. Se eu pudesse descrever eu diria que o livro é bom e ruim ao longo de cada capítulo, mas vou detalhar tudo isso mais adiante durante meus pitacos.
            Sem mais delongas, vamos ao livro. A obra é dividida em três partes bem consistentes e de certa forma heterogêneas entre si. Retrata o início da relação, seu amadurecimento, os problemas e percalços natos da sua existência doentia, o declive e então o final da relação entre Margaux e Peter. Como não sou bom em criar liames entre um parágrafo e outro, vou mencionar parte a parte porque bom, eu quero.

Parte I

Tão importante quanto ver e ser apresentado à mente perturbada de Peter, suas artimanhas, joguetes e sua relação com Margaux, é conhecer a família e o contexto no qual a menina cresceu. Logo nas primeiras páginas somos apresentados a uma padrão de família classe média conservadora, que é altamente preocupada com as aparências, mas bem avariada em suas estruturas. Em todo o livro são escrachadas as falhas do pai, seu culto a “honra“ da família, bem como seu problema com alcoolismo e conservadorismo típicamente latino. Soma-se uma mãe doente mental com personalidade bondosa, chegando-se algumas vezes a se questionar se tal comportamento não se deve ao uso cavalar dos medicamentos psiquiátricos.
É nesse quadro de desestruturação em que nos é apresentada a pequena Margaux Fragoso em seus sete anos de idade. Crescendo com um pai alcoólatra, de humor instável, possessivo e insatisfeito com sua vida, cujo único escape é pressionar e criar terrorismo psicológico em sua família e sua mãe doente mental de fraco discernimento e facilmente influenciável. Nesse turbilhão (não um turbilhão, mas em uma piscina pública), ela conhece Peter, que passaria a ser seu mentor e ao mesmo tempo algoz de sua infância.
Toda a primeira parte do livro é dedicada a mostrar como a relação deles inicia e cria raiz, como o abusador toma terreno e se aproxima da criança e de seus pais, surgindo como um cavaleiro montado em um cavalo branco para salvar a pobre Margaux atormentada por uma família em frangalhos, coisa que não acontece. Peter cria um universo só dele e de Margaux, onde existem apenas os dois, onde seus problemas ficam de fora, e tudo é um grande sonho infantil. Ele propicia um ambiente físico perfeito para isso, além de aparentar ter a alma pura de Peter Pan, coisa que o ajuda a não levantar grandes suspeitas.
Dados momentos da história, a coisa era tão pura e terna, que eu cheguei a duvidar de que haveria alguma forma de abuso e a leitura foi até bem agradável, pois Peter não é retratado como um o esteriótipo de pedófilos que temos em nossas mentes: Corpulento e asqueroso que sodomizava suas presas em alguma viela imunda e fétida. Mas sim como uma espécie de pai amoroso, talvez até um avô, daqueles que entopem os netos de doces e fazem todas as suas vontades. Creio que este tipo de pedófilo (digamos, mais humanizado) seja o mais perigoso, pois não só molesta sua vítima, mas também embaralha sua mente e cria algo semelhante a uma síndrome de Estocolmo. Criando uma necessidade irracional na criança, para querer sempre sua presença, ou as facilidades e atrativos que ele possui em suas mangas.
Quando a coisa degringola e os abusos começam, ainda que de forma atrapalhada e de certa forma “ineficiente”, aí amigo, aperte os cintos, porque boa parte do livro você vai ler sentindo que está com a cabeça enfiada na água, sentindo uma pressão e agonia bem desconfortáveis. É justamente quando os abusos têm início, é que se denota o quanto a relação dos dois já está tão fortemente atrelada. Peter fizera um bom trabalho. Ele criou a droga que Margaux precisava. Família, segurança, carinho e felicidade, em contrapartida ele também cai em sua própria tocaia, pois como a autora retrata, ele não é apenas um mero abusador, ele acaba por cultuar sua vítima, ficando possessivo e até mesmo violento algumas vezes.
Acontecem algumas coisas das quais eu não vou contar pra não estragar tudo e então somos levados a parte seguinte, aonde a relação vai tomando formas diferentes.

Parte II

            Acompanhamos ao longo de todo o livro o crescimento de Margaux, mas não quero tratar disso agora porque falarei com mais carinho no fim do post, o importante deste fato é que nos são apresentadas Margaux diferentes durante todo o livro, conforme envelhece, sua relação com Peter se modifica conforme já citei acima. Eles criam além dos abusos, uma relação de necessidade um do outro, e não apenas sexualmente, isso é até deixado de lado em não raras vezes. Apesar da violência, Peter é como um porto seguro para Margaux é aí que eu me referia que o livro é bom e ruim ao mesmo tempo, pois o único que chegou a se manifestar contra a proximidade dos dois foi o pai de Margaux. O que nos leva a algo curioso: O herói também é vilão, e o vilão de certa forma tem seus momentos heróicos. Não há maniqueísmo na trama. Apenas lapsos e momentos em que cada um age como lobo ou como cordeiro.
Tal característica fica bem clara nos momentos em que o pai de Margaux toma certa atitude (que não vou contar porque é spoiler, duh!) que faz cessar os abusos, esse é o seu momento heróico mais emblemático, porém ele continua agressivo, bebe constantemente e continua a atormentar psicologicamente sua família com brigas, insultos e ameaças. Peter, entretanto é amoroso, compreensivo, instiga o potencial de Margaux, como um pai deveria fazer, no entanto possui seus momentos de tensão sexual e insiste até conseguir as carícias de que sente vontade.
            Possivelmente essa inconstância de tratamentos e sentimentos tenham levado ao que se pode chamar de ápice da trama, e do sofrimento de Margaux e por consequência, a parte final do livro.

Parte III

Aqui nossa protagonista já na fase adulta tem uma relação atípica com Peter, como a de um casamento desgastado e próximo do divórcio, ele já com idade avançada, mas com o mesmo ímpeto possessivo, e ela no auge de sua juventude, trabalhando, estudando e tentando manter uma vida e relações normais para sua idade.
Aqui é interessante não mais pelos abusos, mas pela dependência que um continua tendo do outro, mesmo Margaux tendo uma vida “adulta” com preocupações e prioridades, ela não consegue se afastar de Peter e de seu passado atrelado a ele. O grand finale com o suicídio de Peter não é o grande foco do fim do livro, não é retratado como algo épico. O foco desta terceira parte é ver como ela supera a figura de seu agressor, desde o luto e saudades, até o momento em que não só ela, mas como o leitor tira a cabeça da água e não mais sente aquela pressão sufocante que fora a narrativa até então. É como se víssemos um novo horizonte, uma nova vida para Margaux. Sua perspectiva agora clara sobre Peter e sua monstruosidade, bem como a superação da figura de um fantasma do passado.
           
Criticas e comentários:

            É o primeiro livro sobre pedofilia que eu leio sobre o tema descrito na visão da vítima, o que inegavelmente é bem interessante e eu diria peculiar. A trama é absurdamente crua. Em que sentido? As descrições são tão realistas, sem rodeios ou parábolas que mais parecem um conto erótico, ou como creio ser a proposta: Um relato sincero (um tapa na cara). Em dados momentos quando as relações entre os dois eram descritas tão detalhadamente, tão cruas, que dava aquela travada na garganta e você pensa “puta que me pariu” e dava vontade de fechar o livro. Talvez fosse essa a idéia de Margaux, sabe Deus.
            Uma pequenina curiosidade: Durante todo o livro se fala muito na doença da mãe de Margaux, porém nunca é dito qual seu quadro clínico, apenas cita-se os remédios que toma, bem como alguns sintomas. Pode ser talvez para resguardar sua imagem, ou para deixar aquela ponta de curiosidade no leitor, nunca saberemos, e também o fato não é relevante.
            Dei uma zapeada na internet e li que o livro apesar do sucesso fora duramente criticado justamente por essa riqueza de detalhes, alguns críticos chegaram a dizer que o livro era fantasioso e com pretensão de ser como um novo Lolita. Não concordo nem discordo deles, mas muito pelo contrário! O livro tem sim alguns pontos detalhistas de mais, não só nas passagens carnais, mas detalhes de ambiente, marcas (como a do chiclete que ela mascou quando tinha seus 8 anos na casa de Peter em um dia de verão. Aí é pra cair os butiá do bolso), locais e etc. Coisas absurdamente tão bem descritas, que é difícil acreditar que ela consiga puxar tão bem assim de sua infância. Até considero plausível que ela tenha colocado um floreio aqui e acolá para dar mais vivacidade e intensidade a sua narrativa, mas daí a crer que todo o descrito é mentira já não consigo acreditar. As palavras são tão cruas e sinceras que o leitor cria uma conexão com a obra e vê que ali reside uma verdade. Pode ser tolice minha acreditar, mas senti essa conexão, então possui o selo “Tejada” de autenticidade. Por fim, o que mais me faz considerar que não se trata de uma mera ficção, é o modo como Margaux é descrita durante seu crescimento. De criança até sua vida adulta, a evolução de sua personalidade, os transtornos e distúrbios que adquire e como tais fatores a lapidam. Há uma aura de tristeza, de isolamento que a envolvem, o auge disso é visto em sua adolescência, não vou me aprofundar mais para não acabar com a graça do livro, mas como ponto pessoal eu preciso constar, Margaux retrata milhões de meninas pelo mundo todo, vítimas não só de abuso sexual, mas de toda sorte de violência física e psíquica, que se isolam e acabam indo a caminhos escuros como transtornos alimentares, transtornos sexuais e depressão. Espero que sua obra seja um raio de sol para que essas meninas possam se espelhar e superar seus demônios, tal como Margaux.