quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Desventuras em Série - Você não costuma chorar? Pois você vai









Sinopse: "'Mau começo' é o primeiro volume de uma série em que Lemony Snicket conta as desventuras dos irmãos Baudelaire. Violet, Klaus e Sunny são encantadores e inteligentes, mas ocupam o primeiro lugar na classificação das pessoas mais infelizes do mundo. De fato, a infelicidade segue os seus passos desde a primeira página, quando eles estão na praia e recebem uma trágica notícia. Esses ímãs que atraem desgraças terão de enfrentar, por exemplo, roupas que pinicam o corpo, um gosmento vilão dominado pela cobiça, um incêndio calamitoso e mingau frio no café da manhã. É por isso que, logo na quarta capa, Snicket avisa ao leitor: 'Não há nada que o impeça de fechar o livro imediatamente e sair para uma outra leitura sobre coisas felizes, se é isso que você prefere'." (Fonte: http://www.saraiva.com.br/mau-comeco-vol-1-col-desventuras-em-serie-455535.html - acessado em 14/01/2016 às 13h51min)



Como Conheci: O filme de 2003 me abriu as portas para essa saga fantástica. Com Jim Carrey encarnado como Conde Olaf e uma ambientação e figurinos bem caricatos, a película me conquistou pelo humor ácido. Tempos depois descobri que a obra era a adaptação de uma série de treze livros. Meus olhos brilharam e minha vontade de tê-los foi imediata, apesar do box ter um preço bem salgado eu passei anos cobiçando essa coleção.
Imagine então a minha alegria quando vejo o box da saga na mesa da sala, presente dado pela Dona Patroa. Fiquei empolgado em me embrenhar naquela história que eu havia conhecido apenas na adaptação. Mal sabia eu quantas desgraças e tristezas me aguardavam de forma sorrateira entre aquelas páginas. Assim como Lemony Snicket faz reiteradas vezes em seus livros, o advirto para fechar este blog o quanto antes. Faça qualquer outra coisa animadora e feliz que não ler essa desventurada resenha.



Resenha: Lamento que você tenha sido cabeça dura (uma expressão que aqui significa "teimoso demais para fazer algo mais saudável e alegre com seu tempo livre") em continuar lendo, por isso lhe dou uma pesarosa congratulação. O cumprimento, por assim como eu ter se interessado na desgraçada história dos irmãos Baudelaire, mas lhe dou também os meus pêsames, haja vista que assim como eu, você ter se interessado na desgraçada história dos órfãos Baudelaire.

Assim como muitas coisas ruins, o martírio dos três órfãos começa em um dia sombrio, em uma praia cinzenta. Violet,  Klaus e Sunny recebem a terrível notícia que seus pais pereceram em um incêndio que consumiu toda a mansão da família. Não sendo tal fato trágico o suficiente, eles são mandados para serem cuidados por um parente distante chamado de Conde Olaf. Uma ator de prestígio e caráter altamente duvidosos. Enquanto a trama se desdobra, vê-se que Olaf almeja unicamente roubar a fortuna dos Baudelaire. Antes que você pragueje meu nome, isso não é necessariamente um spoiler, pois os treze livros giram em torno disso. O grande plot da série é ver como os órfãos escapam das garras de seu tutor, plano maligno após o outro.

Os livros possuem uma escrita bem clara e de leitura rápida, em linguagem muito acessível, exceto por alguns termos complexos ou latinos, colocados propositalmente e que vão sendo esmiuçados por Snicket durante cada livro, quase como se tal termo fosse um mote daquela obra.

Inicialmente eu até pensava ser uma saga de livros infantis, dada a premissa maniqueísta e absurdamente lúdica. Ledo engano, Desventuras em Série se lido para crianças, serve apenas para traumatizá-las. Traumatiza adultos também, todo mundo fica abalado, é uma daquelas coisas impossíveis de classificar uma indicação etária para seu acesso, dada a sua profundidade.

O melhor que posso fazer para exprimir uma definição para DeS, é chamá-la de "obra infantil para adultos". Sendo assim, Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler) passa as frustrações e temores dos jovens Baudelaire na visão infantil deles, porém contada pelo próprio autor que segue o rastro dos lugares por onde os irmãos passaram, investigando seus infortúnios.

Essa linha de narrativa dá escopo para uma grande crítica social. Crianças não são ouvidas pelos adultos e isso é fato. Mesmo na iminência de grande perigo, sua fala e súplicas são negligenciadas ou ignoradas, seja pelo simples fato de serem crianças, ou pela presunção dos adultos em crerem que estão no comando de determinada situação (mesmo quando na verdade estão dançando nas mãos de um sádico incendiário com um olho tatuado no tornozelo). 

Snicket, com uma sutileza infantil aborda temas seríssimos, como violência intrafamiliar, abuso, o abandono estatal e o descaso da própria sociedade em relação a crianças em situação de risco, travestindo tais mazelas em pura fantasia e humor melancólico. Repito, Desventuas em Série não é uma coleção indicada para crianças (nem para alguns adultos).

Aqui abro um parêntesis sobre a própria realidade brasileira. Apesar de sermos signatários da Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU (Decreto nº 99.710/1990), e termos em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) que prevêem a proteção integral da criança e do adolescente, há um sem número de jovens Baudelaire vivendo amordaçadas por suas famílias ou responsáveis, sofrendo todo o tipo de violência e maus-tratos. Olaf é uma caricatura que beira o absurdo da maldade, mas muitos de seus comportamentos são vistos no mundo real, tais como obrigar as crianças em tarefas árduas, humilhá-las e mantê-las em condições insalubres para viver por exemplo. Mais revoltante que a violência, é a apatia e omissão tanto do Estado quanto da sociedade quando as crianças tentam denunciar os crimes de seu tutor. 
Assim como na vida real, Estado e sociedade consideram que tais denuncias são "birra de criança", ou que não devem interferir, pois a educação dos pequenos é direito sagrado dos pais ou responsáveis. Tal omissão faz com que tanto os jovens Baudelaire, quanto as crianças de carne e osso passem a se calar e sofrer em silêncio. Seja por medo de represálias ou por simplesmente descrença de que alguma ajuda de fato virá. 

Não é nada raro em processos que se investiga crimes praticados contra crianças, observar relatos de que a violência não foi pontual, sendo praticada de forma reiterada por meses e até anos, sendo descoberta (quando é) por outro adulto (muitas vezes o professor, o médico ou outra pessoa de fora do convívio familiar) que então leva o caso à luz das autoridades. A morosidade em proteger a criança se dá em grande parte pois quando a vítima tenta contar sua dor para outros adultos da família ou de seu convívio, ela é descredibilizada devido a estima que as pessoas tem para com o abusador, pensando que "ele jamais faria isso, é uma pessoa honrada e trabalhadora", pesando a palavra do agressor em detrimento da vítima, única e simplesmente por ser criança. É como se o infante fosse considerado um cidadão de segunda categoria e sua  fala tivesse peso inferior ao de um adulto.

Infelizmente nem todas as crianças são inventivas como Violet, ou sapientes como Klaus, tampouco possuem dentes tão afiados quanto os de Sunny para poderem se livrar dos abusos e escapar do terror em que vivem. Por isso as obras de Handler são tão importantes para que se faça uma reflexão bastante séria. Estamos mesmo cuidando de nossas crianças? Nós quanto sociedade estamos dando a devida atenção para isso? Em uma época em que a violência é banalizada e a hiper sexualização é difundida de maneira precoce e desmedida, Desventuras em Série serve para nos deixar muito desconfortáveis, exatamente para nos forçar a pensar.

Como mencionei no início, Lemony Snicket estimula seu leitor a desistir de sua obra em todos os volumes, mais de uma vez por livro. Em alguns casos até sugere que você o queime, jogue fora dentre outras atrocidades engraçadas. Além de ter o efeito de quebrar a tensão na história, é uma gostosa interação com o autor que também esconde cartas secretas entre as páginas e conversa por algumas vezes com o leitor.

Outro ponto alto dessa tragicomédia são os disfarces. Inicialmente Conde Olaf assume fantasias absurdas para se aproximar dos órfãos. De tão esdrúxulos que são seus personagens, sua figura assume certo ar cômico, suavizando a figura do vilão absoluto.

Para não me estender muito mais, o final de DeS é perfeito e condiz com tudo o que a obra constrói ao longo dos treze livros. É como a vida, onde não existem vilões nem heróis, existem apenas pessoas e suas motivações. Eu demorei um bocado de tempo para digerir a série, até cheguei a ficar revoltado com o final escrito, mas depois de ponderar bastante e fazer um paralelo sobre o que eu estava passando na minha vida e o dito final, eu abri um sorrisão e saquei a idéia proposta: A vida em si é uma enorme desventura.

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