Sinopse: Esta é a biografia de Richard Leonard Kuklinski, que exerceu a profissão de matador de aluguel por quarenta e três anos e executou mais de 200 pessoas sob a tutela da máfia de New Jersey. 'O homem de gelo' é fruto de mais de 240 horas de entrevistas frente a frente com Kuklinski na Penitenciária Estadual de Trenton. O autor Philip Carlo divide a obra em cinco capítulos e mostra como era a relação de Kuklinski com seus pais e irmãos, os primeiros trabalhos para a máfia, os assassinatos com requintes de crueldade, a profissão, a relação com seus filhos, esposa e, finalmente, a prisão. Richard Kublinski recebeu o apelido de homem de gelo porque deixava algumas de suas vítimas em um congelador, retirando-as depois de alguns dias. Deste modo os investigadores não conseguiam precisar quando o crime havia sido cometido. Mas qual seria a causa de tanta crueldade? O que aconteceu com Richard Kuklisnki para que ele viesse a se transformar no homem de gelo?
Fonte: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=1873647 (acessado em 28/05/2014 às 23h00min).
Como Conheci: Antes de ler sua biografia, eu nunca havia ouvido falar em Richard Kuklinski ou de seus crimes, mas eis que estou passando por uma feira literária na faculdade e vejo o dito cujo (adoro essa feirinha, livros incrivelmente bacanas por 10 reais). Primeiro dou uma encarada, pego na mão, dou uma corrida de olho na contracapa e enfim levo para casa. Comecei a lê-lo em 1º de novembro de 2012, mas deixei de lado por preguiça, e finalmente acabei neste ano.
Resenha: Toda a história de vida de Richard Kuklinski é de certa forma um ensaio comprovando que o homem é produto do meio em que vive. Nascido em uma família pobre (o que não é demérito, diga-se de passagem) e emocionalmente desequilibrada, com um pai alcoólatra, e uma mãe religiosa (no pior sentido possível), ele desde cedo foi condicionado a ver o mundo como um sobrevivente, em que os mais fortes e os mais inteligentes abocanham os fracos e tolos. Não é difícil somar uma infância conturbada, pais cruéis e relapsos, com um talento nato à violência. O resultado disso é um dos mais geniais e cruéis homicidas seriais da história moderna.
Pessoalmente gosto de dividir o livro em três fases bem distintas e heterogêneas: Richard jovem, adulto, e por fim preso. A primeira aborda toda sua infância humilde, a figura paterna violenta que o influenciou muito em sua formação e o começo de sua longa trilha criminosa, dos pequenos roubos, à produção de pornografia. Apesar de manifestamente odiar o pai, é inegável ao fazer a leitura, reparar semelhanças entre eles, o próprio autor Philip Carlo acaba por comentar essa peculiaridade. A parte em que trata da juventude de Richard mostra um jovem extremamente violento e irascível, com uma vontade insaciável em ganhar dinheiro, e um dom ainda maior em gastá-lo. Os hormônios da idade unidos ao perfil agressivo o fazem começar a trilhar o caminho da criminalidade, e a treinar, sim, treinar de modo empírico, meios e formas de praticar assassinato. Essa habilidade em matar de tantas formas diferentes, sem se apegar a nenhum ritual ou fetichismo, é uma das características que o tornaram tão singular e difícil de ser capturado posteriormente.
Em sua transição à vida adulta, Richard casa-se, e constitui família. Sua relação com esposa e filhos é como uma pintura. Tudo o que ele procurava era uma família perfeita e feliz, mas quando algo fugia a seu controle ou o contrariava, acabava por descontar sua raiva em tudo e todos, principalmente em sua esposa. A família era feliz apenas por fora, para os vizinhos, mas por dentro vivia em um temor constante. Ele provia tudo (e até um pouco mais) o que sua família queria e pedia. Ele tinha um senso arcaico de mantenedor da prole, como um legítimo patriarca. Apesar de gastar fortunas em jogatinas, sua família era prioridade, sempre "trabalhando" mais e mais para que não lhes faltasse conforto. Nessa fase da vida é que Richard fica extremamente ativo nos "negócios", chegando a trabalhar de forma independente para todas as cinco famílias mafiosas de Nova Jersey, cumprindo contratos de assassinato da forma como o cliente deseja. Tiros, facas, "acidentes", até mesmo usando ratos (eu disse ratos mesmo). Ele não possui emoção, prazer ou repúdio pelo trabalho, ele trata a vida de suas vítimas como a papelada em um escritório, uma mera tarefa a ser cumprida a fim de lhe render dinheiro.
Sua frieza e ausência quase completa de valores é notável, mas em algumas passagens do livro observa-se uma certa noção de moralidade, talvez podendo ser chamada de ética, quando ele por mais de uma vez recua-se a matar mulheres e crianças. Há uma parte em que o grande e brutal vilão torna-se o "mocinho", abatendo de graça um traficante de crianças. É uma das poucas vezes em que se observa o Homem de Gelo tendo peso na consciência e se compadecendo de alguém. Em alguns momentos percebe-se que de fato seu fraco são as crianças. Ele fazia tudo para agradá-las ou ajudá-las, talvez uma forma de evitar que outras crianças tenham uma infância torta e corroída como a dele.
Na terceira e última fase, há todo o engenho para se capturar o temível Richard Kuklinski. Forma-se uma enorme força-tarefa e uma operação elaborada para ludibriá-lo. É até irônico que justo nessa época, é que Richard menos estava "ativo" nos assassinatos, cuidava mais de golpes de outra sorte, e até cogitava se aposentar, entrar para a legalidade. Causa estranheza que um homem sempre tão cuidadoso em seus atos, mesmo os do cotidiano, tenha se deixado enganar de maneira tão fácil, provável que tenha sido justamente pela suspeita de estar sob os olhos das autoridades, que ele tenha se desleixado. O fato é que fora capturado, e não vou entrar em mais detalhes para não fazer a leitura perder o brilho. O interessante desse momento da vida de Richard, é como ele fica na prisão, cumprindo duas prisões perpétuas, ele que era tão apaixonado por sua esposa, lhe dá o divórcio e manda que nem ela, nem nenhum de seus filhos o visitem na prisão, pois não queria os envergonhar mais. O ímpeto machista de provedor da família permanece, ainda que enclausurado. Richard tenta na medida de suas possibilidades, afastar sua família de sua ruína pessoal.
Em suma, Richard Kuklinski fora uma das figuras criminosas mais controvertidas do século passado, sua ausência de sentimentos para com as vítimas, e seu profissionalismo sangrento o tornaram tão interessante que a HBO fez uma série de documentários e entrevistas enquanto ele estava preso. Recentemente até um filme fora lançado contando parte de sua vida. Apesar de bem produzido, a película tem um roteiro pobre e desengonçado, desperdiçando ótimo material, para fazer apenas um blockbuster que male male vai ser para DVD.
Indico ou não Indico: Sem dúvida é um dos livros mais interessantes que já pus os olhos, indico sem sombra de dúvidas. Se você conseguir ignorar e relevar as pitadas de sensacionalismo que são salpicadas aqui e acolá, a leitura é muito boa e cativante.
