Sinopse: Tigre, tigre é o relato de um doentio relacionamento de 15 anos entre
Peter Curran (nome fictício), então com 51 anos, e a pequena Margaux,
com sete
anos, escrito pela própria vítima. Mesclando os traumas que sofreu com
as estratégias de sobrevivência que criou para superar a situação, a
autora
constrói uma narrativa sincera e cruel sobre a perda da inocência.
Recém-lançado nos Estados Unidos, o livro ganhou resenha nos principais
jornais e
revistas do país.
Conheci o livro quando em algum dia eu estava no meu ritual
de olhar as notícias no site do G1, eis que vi uma chamada sobre um livro sobre
abuso sexual e li um resumo muito sucinto que trazia junto à imagem da capa do
dito cujo (muito bonita, diga-se de passagem) que estava na matéria. Pelas
breves palavras na notinha do site eu me encantei e quis muito ler a obra, mas
tempo vai e tempo vem, grana curta e a demora até o livro chegar às livrarias
daqui, acabou que fui lendo outros livros e deixando este de lado, até que em
um belo dia estou eu belo, formoso, serelepe e pimpão passeando com meus tios
no shopping, acompanhando eles fazendo suas compras. E dentro de uma das lojas
meu tio me questiona se eu queria um moletom, já que estava comprando pra ele e
pros meus primos, queria dar um para mim também. Eu agradeci, mas disse que
preferia um livro, que tinha um lançamento que eu estava de olho e seria de
grande ajuda para o tema que eu estava pensando em escolher pro meu TCC. O que
bom, é uma baita verdade, mas não vem ao caso. Como uma criança em uma loja da
LEGO eu entrei todo animadinho na livraria, pedi um exemplar à atendente e fui
direto pro caixa com meu tio, finalizamos as compras, etc, etc e etc. (creio
que não fiz meu ritual engraçadinho de pedir pra embalar para presente, mas
tudo bem) Devorei o livro em dois dias e virei um expert no assunto? Não. Este
não é o estilo Tejada. Depois de comprado o livro, ele ficou mais uns belos
meses parado na minha estante, pegando poeira enquanto eu lia mais e mais
coisas diferentes de acordo com meus apetites e necessidades imediatas.
Terminando
o livro dois de Crônicas de gelo e fogo eu me decidi finalmente a ler Tigre
Tigre. Eu estava com receio e até com um certo medo do livro. Eu não fazia
idéia do que me aguardava em cada página, se seria algo pavoroso, grotesco ou
horrendo, entretanto fui surpreendido de um jeito estranho. Se eu pudesse
descrever eu diria que o livro é bom e ruim ao longo de cada capítulo, mas vou
detalhar tudo isso mais adiante durante meus pitacos.
Sem mais
delongas, vamos ao livro. A obra é dividida em três partes bem consistentes e
de certa forma heterogêneas entre si. Retrata o início da relação, seu
amadurecimento, os problemas e percalços natos da sua existência doentia, o
declive e então o final da relação entre Margaux e Peter. Como não sou bom em
criar liames entre um parágrafo e outro, vou mencionar parte a parte porque
bom, eu quero.
Parte I
Tão importante quanto ver e ser
apresentado à mente perturbada de Peter, suas artimanhas, joguetes e sua
relação com Margaux, é conhecer a família e o contexto no qual a menina
cresceu. Logo nas primeiras páginas somos apresentados a uma padrão de família
classe média conservadora, que é altamente preocupada com as aparências, mas
bem avariada em suas estruturas. Em todo o livro são escrachadas as falhas do
pai, seu culto a “honra“ da família, bem como seu problema com alcoolismo e
conservadorismo típicamente latino. Soma-se uma mãe doente mental com
personalidade bondosa, chegando-se algumas vezes a se questionar se tal
comportamento não se deve ao uso cavalar dos medicamentos psiquiátricos.
É nesse quadro de desestruturação
em que nos é apresentada a pequena Margaux Fragoso em seus sete anos de idade.
Crescendo com um pai alcoólatra, de humor instável, possessivo e insatisfeito
com sua vida, cujo único escape é pressionar e criar terrorismo psicológico em
sua família e sua mãe doente mental de fraco discernimento e facilmente
influenciável. Nesse turbilhão (não um turbilhão, mas em uma piscina pública),
ela conhece Peter, que passaria a ser seu mentor e ao mesmo tempo algoz de sua
infância.
Toda a primeira parte do livro é
dedicada a mostrar como a relação deles inicia e cria raiz, como o abusador
toma terreno e se aproxima da criança e de seus pais, surgindo como um
cavaleiro montado em um cavalo branco para salvar a pobre Margaux atormentada
por uma família em frangalhos, coisa que não acontece. Peter cria um universo
só dele e de Margaux, onde existem apenas os dois, onde seus problemas ficam de
fora, e tudo é um grande sonho infantil. Ele propicia um ambiente físico
perfeito para isso, além de aparentar ter a alma pura de Peter Pan, coisa que o
ajuda a não levantar grandes suspeitas.
Dados momentos da história, a
coisa era tão pura e terna, que eu cheguei a duvidar de que haveria alguma
forma de abuso e a leitura foi até bem agradável, pois Peter não é retratado
como um o esteriótipo de pedófilos que temos em nossas mentes: Corpulento e
asqueroso que sodomizava suas presas em alguma viela imunda e fétida. Mas sim
como uma espécie de pai amoroso, talvez até um avô, daqueles que entopem os
netos de doces e fazem todas as suas vontades. Creio que este tipo de pedófilo
(digamos, mais humanizado) seja o mais perigoso, pois não só molesta sua
vítima, mas também embaralha sua mente e cria algo semelhante a uma síndrome de
Estocolmo. Criando uma necessidade irracional na criança, para querer sempre
sua presença, ou as facilidades e atrativos que ele possui em suas mangas.
Quando a coisa degringola e os
abusos começam, ainda que de forma atrapalhada e de certa forma “ineficiente”,
aí amigo, aperte os cintos, porque boa parte do livro você vai ler sentindo que
está com a cabeça enfiada na água, sentindo uma pressão e agonia bem
desconfortáveis. É justamente quando os abusos têm início, é que se denota o
quanto a relação dos dois já está tão fortemente atrelada. Peter fizera um bom
trabalho. Ele criou a droga que Margaux precisava. Família, segurança, carinho
e felicidade, em contrapartida ele também cai em sua própria tocaia, pois como
a autora retrata, ele não é apenas um mero abusador, ele acaba por cultuar sua
vítima, ficando possessivo e até mesmo violento algumas vezes.
Acontecem algumas coisas das
quais eu não vou contar pra não estragar tudo e então somos levados a parte
seguinte, aonde a relação vai tomando formas diferentes.
Parte II
Acompanhamos
ao longo de todo o livro o crescimento de Margaux, mas não quero tratar disso
agora porque falarei com mais carinho no fim do post, o importante deste fato é
que nos são apresentadas Margaux diferentes durante todo o livro, conforme
envelhece, sua relação com Peter se modifica conforme já citei acima. Eles
criam além dos abusos, uma relação de necessidade um do outro, e não apenas
sexualmente, isso é até deixado de lado em não raras vezes. Apesar da
violência, Peter é como um porto seguro para Margaux é aí que eu me referia que
o livro é bom e ruim ao mesmo tempo, pois o único que chegou a se manifestar
contra a proximidade dos dois foi o pai de Margaux. O que nos leva a algo
curioso: O herói também é vilão, e o vilão de certa forma tem seus momentos
heróicos. Não há maniqueísmo na trama. Apenas lapsos e momentos em que cada um
age como lobo ou como cordeiro.
Tal característica fica bem clara nos momentos em que o pai
de Margaux toma certa atitude (que não vou contar porque é spoiler, duh!) que
faz cessar os abusos, esse é o seu momento heróico mais emblemático, porém ele
continua agressivo, bebe constantemente e continua a atormentar
psicologicamente sua família com brigas, insultos e ameaças. Peter, entretanto
é amoroso, compreensivo, instiga o potencial de Margaux, como um pai deveria
fazer, no entanto possui seus momentos de tensão sexual e insiste até conseguir
as carícias de que sente vontade.
Possivelmente
essa inconstância de tratamentos e sentimentos tenham levado ao que se pode
chamar de ápice da trama, e do sofrimento de Margaux e por consequência, a
parte final do livro.
Parte III
Aqui nossa protagonista já na fase
adulta tem uma relação atípica com Peter, como a de um casamento desgastado e
próximo do divórcio, ele já com idade avançada, mas com o mesmo ímpeto
possessivo, e ela no auge de sua juventude, trabalhando, estudando e tentando
manter uma vida e relações normais para sua idade.
Aqui é interessante não mais
pelos abusos, mas pela dependência que um continua tendo do outro, mesmo
Margaux tendo uma vida “adulta” com preocupações e prioridades, ela não
consegue se afastar de Peter e de seu passado atrelado a ele. O grand finale
com o suicídio de Peter não é o grande foco do fim do livro, não é retratado
como algo épico. O foco desta terceira parte é ver como ela supera a figura de
seu agressor, desde o luto e saudades, até o momento em que não só ela, mas
como o leitor tira a cabeça da água e não mais sente aquela pressão sufocante
que fora a narrativa até então. É como se víssemos um novo horizonte, uma nova
vida para Margaux. Sua perspectiva agora clara sobre Peter e sua monstruosidade,
bem como a superação da figura de um fantasma do passado.
Criticas e comentários:
É
o primeiro livro sobre pedofilia que eu leio sobre o tema descrito na visão da
vítima, o que inegavelmente é bem interessante e eu diria peculiar. A trama é
absurdamente crua. Em que sentido? As descrições são tão realistas, sem rodeios
ou parábolas que mais parecem um conto erótico, ou como creio ser a proposta:
Um relato sincero (um tapa na cara). Em dados momentos quando as relações entre
os dois eram descritas tão detalhadamente, tão cruas, que dava aquela travada
na garganta e você pensa “puta que me pariu” e dava vontade de fechar o livro. Talvez
fosse essa a idéia de Margaux, sabe Deus.
Uma pequenina
curiosidade: Durante todo o livro se fala muito na doença da mãe de Margaux,
porém nunca é dito qual seu quadro clínico, apenas cita-se os remédios que
toma, bem como alguns sintomas. Pode ser talvez para resguardar sua imagem, ou
para deixar aquela ponta de curiosidade no leitor, nunca saberemos, e também o
fato não é relevante.
Dei
uma zapeada na internet e li que o livro apesar do sucesso fora duramente
criticado justamente por essa riqueza de detalhes, alguns críticos chegaram a
dizer que o livro era fantasioso e com pretensão de ser como um novo Lolita. Não
concordo nem discordo deles, mas muito pelo contrário! O livro tem sim alguns
pontos detalhistas de mais, não só nas passagens carnais, mas detalhes de
ambiente, marcas (como a do chiclete que ela mascou quando tinha seus 8 anos na
casa de Peter em um dia de verão. Aí é pra cair os butiá do bolso), locais e
etc. Coisas absurdamente tão bem descritas, que é difícil acreditar que ela
consiga puxar tão bem assim de sua infância. Até considero plausível que ela
tenha colocado um floreio aqui e acolá para dar mais vivacidade e intensidade a
sua narrativa, mas daí a crer que todo o descrito é mentira já não consigo
acreditar. As palavras são tão cruas e sinceras que o leitor cria uma conexão
com a obra e vê que ali reside uma verdade. Pode ser tolice minha acreditar,
mas senti essa conexão, então possui o selo “Tejada” de autenticidade. Por fim,
o que mais me faz considerar que não se trata de uma mera ficção, é o modo como
Margaux é descrita durante seu crescimento. De criança até sua vida adulta, a
evolução de sua personalidade, os transtornos e distúrbios que adquire e como
tais fatores a lapidam. Há uma aura de tristeza, de isolamento que a envolvem,
o auge disso é visto em sua adolescência, não vou me aprofundar mais para não
acabar com a graça do livro, mas como ponto pessoal eu preciso constar, Margaux
retrata milhões de meninas pelo mundo todo, vítimas não só de abuso sexual, mas
de toda sorte de violência física e psíquica, que se isolam e acabam indo a
caminhos escuros como transtornos alimentares, transtornos sexuais e depressão. Espero que sua obra seja um raio de sol para que essas meninas possam se espelhar e superar seus demônios, tal como Margaux.

então é praticamente um pornô
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